Monday, March 17, 2014

Stop, Adedanha ou Adedonha para Intelectuais

by Luciano Milici

Filósofo pre-socrático com X ???
Dentre as centenas de milhares de colaboradores deste magnânimo portal filosófico, três são, sem dúvida, os mais desocupados cronologicamente disponíveis para o exercício de atividades aleatórias: Pedro Tolentino, Sir Anthony e eu, Luciano Milici.

Para matar o tempo em nossas vidas repletas de ócio, desnecessárias e ausentes de sentido, costumamos nos encontrar com frequência para desfrutar do lirismo e da frugalidade onanista onírica das noites paulistanas. Os emocionantes programas são inúmeros e a escolha nem sempre é fácil para  nerds sumidades do nosso gabarito. 

Juntos, notamos em nosso inexistente gigantesco círculo de amigos que todos, em sua inveja jocosa, desdenham de nossos esportes semanais assumidamente por não estarem aptos ao desafio mental e nem serem convidados para as festanças loucas que organizamos. Eu não tenho tantos amigos famosos, confesso, mas sei que Sir Anthony frequenta o círculo dos reis do camarote e Pedro Tolentino é brother e amigo pessoal do ator José Mayer.

Fiéis na crença que Candy Crush, Flappy Bird, Call of Duty, GTA e outros passatempos lúdicos são vulgares demais para a nossa atenção, dedicamos nossas noites em árduos e disputadíssimos campeonatos de modalidades diversas que muito encantarão você, querida leitora nua sobre uma sela de cavalo (você existe?).



Segundo a avançada planilha feita pelo Mr. Tolentino em Lotus 1-2-3, descobrimos que somente nos últimos 6 meses, desfrutamos da companhia uns dos outros em atividades másculas e intelectualmente desafiadoras tais como campeonatos de:

- Supertrunfo (Motos, Carros e Dinossauros)
- Pif Paf 
- Alex Kidd In the Miracle World
- Tômbola 
- Megamania 
- Palitinhos
- Cara a Cara

As partidas são acirradas e, confesso, já terminaram em violência física dados os impasses frequentes e a ausência de um mediador, juiz ou árbitro para encerrar assuntos polêmicos.

Foi por essa razão em que optei por pagar duas horas semanais a mais à minha diarista, Dona Cesariana, para que ela servisse como juíza, jurada e carrasca em cada um dos campeonatos disputados. Ela topou de imediato, não escondendo estar única e exclusivamente interessada no dinheiro.

Mini-bio da minha diarista, Dona Cesariana: Nascida não sei onde, há 44 anos, filha do malabarista César e da acrobata Ana, ela se chama Cesariana e é minha diarista.

Acontece que, certo dia, Dona Cesariana, nos viu jogando insistentemente os mesmos jogos e interrompeu uma tensa partida de Banco Imobiliário(c) (por sorte, eu havia pego revés e deveria ficar na cadeia por 2 rodadas) para sugerir:

- Por que vocês, meninos, não jogam Adedanha?

Eu já desconfiava há tempos do interesse de Dona Cesariana pelo Tolentino, certa vez, ela o presenteara com um naco de carne seca de 800 gramas. Ainda assim, me assustei com a proposta da mulher feita assim, abertamente, para nós três.

- Dona Cesariana, eu sou casado! – respondi, assustado com a proposta, mas já aliviado com a possibilidade de poder terminar a partida de Banco Imobiliário e sair da cadeia sem precisar tirar dois dados iguais.

Dona Cesariana riu e explicou que na dimensão no local de onde vem, Adedanha ou Adedonha é o popular jogo Stop aqui da Terra (nota do editor: em Recife, minha terra natal, este jogo chama-se "Nome, Lugar, Objeto"). No jogo os participantes correm contra o tempo e contra os demais jogadores para preencher cada uma das colunas com palavras que comecem com a letra sorteada. "É como os Jogos Vorazes!", pensei comigo mesmo, mas não disse, com vergonha de ter assistido.

Urramos de empolgação e deleite. Aquilo era muito mais emocionante do que jogar forca e envolvia, praticamente, os mesmos recursos: papel, caneta, muita diversão e aptidão ortográfica.

- E o Pega-Varetas? – perguntou Sir Anthony.

- É, e o Sudoku? –questionou, em seguida, Pedro Tolentino.

Dona Cesariana retrucou sabiamente:

- Isso aí vocês fazem depois, quando eu não estiver aqui para presenciar essa pouca vergonha.

Logo em seguida, explicamos a ela o que é Pega-Varetas e Sudoku e todos rimos e nos abraçamos. Passado o mal-entendido, começamos a jogar Stop, Adedanha ou Adedonha (nota do editor Recifense chato, bairrista e insistente: ou "Nome, Lugar, Objeto").  O que fizemos, porém, foi algo diferente para essa modalidade desportiva que, certamente, irá para os anais mais profundos da história do entretenimento at home nacional.

Veja, abaixo, como se deu nossa partida e aprenda o que é ser nerd  vida loka em termos jogos de salão:

Material necessário:

- Pessoas (jogadores). Nossa experiência mostra que são necessários, no mínimo, 2 jogadores, mas o ideal é a partir de 3 para premiar a criatividade e a malemolência daquele que se destaca com palavras fora do comum. Também não recomendamos mais de 10 pessoas por razões operacionais óbvias

- Papel (folha de caderno daquela matéria que você geralmente não faz anotações)

- Canetas, lápis ou carvão (um para cada jogador, para que todos possam escrever simultaneamente, do contrário, o jogo perde totalmente o sentido)

Preparação:

- Cada jogador deve se sentar em uma cadeira individual, equidistante dos demais envolvidos. Lembrando que há a necessidade de algo para apoiar o papel e facilitar a escrita.

- Define-se o idioma em que a brincadeira se dará. Em países lusófonos, o padrão é o português, mas já soubemos partidas emocionantes em cantonês, esperanto e klingon.

- Cada jogador divide sua folha em colunas com ou sem o suporte de uma régua e, em cada uma delas, escreve o nome das categorias acordadas entre as partes (ver categorias).

Categorias:

- Os jogos normais costumam ter as seguintes categorias: Nome, Fruta, Animal, Objeto, Ator, Novela, Filme, Cor, Carro, CEP (Cidade, Estado ou País), Objeto e até Livro da Bíblia

Como é de conhecimento popular e amplamente divulgado pela imprensa, a equipe Boraver costuma primar pela ousadia quase prometeica. Por isso, depois de um breve brainstorming (ver toró de parpite) definimos nossas categorias, a saber:

- Poetas do século XVIII vítimas de cirrose ou overdose
- Filósofos
- Elementos da tabela periódica (exceto Metais Alcalinos-Terrosos)
- Personagens do Lima Duarte
- Animais Bípedes
- Músicas do É o Tchan ou Gerasamba que tenham autoria do Compadre Washington (exigência de Dona Cesariana, para apimentar o jogo)
- Filmes TSDidi (Filmes do Tarantino, M.Night Shyamalan ou Os Trapalhões)

Regras:

- Definidas as categorias e estando todos os envolvidos munidos de seus papéis, canetas e apoios, começam os trabalhos

- Sorteio da letra da rodada: evoca-se, de maneira uníssona, a palavra “Stop” (que, para esticar, diz-se “UUUeeesstooope”) ou “Adedanha” (que deve ser quebrada em sílabas, “A-de-da-nha”), os jogadores chacoalham e rodam uma das mãos no ar, à vista de todos, com os dedos fechados para aumentar o suspense e a emoção, e – assim que terminam a evocação da palavra- abrem a mão e exibem aleatoriamente a quantidade escolhida de dedos. Por se tratar de uma única mão exposta, a variação pertencerá, geralmente ao intervalo fechado entre 0 e 5 (ver Lula / ver também Polidactilia).

Resumidamente, a fórmula para a exposição de dedos e sorteio das letras é:

[0,5]+x*j

Se Lula, então x=-1

Se Polidactilia, então x=valor excedente

j=número de jogadores

Se resultado <0 então sortear novamente

Cabe, então, ao jogador mais habilitado em ciências exatas, contar os dedos expostos de todos os amigos. No nosso caso, Pedro Tolentino encarregou-se dessa função. O ideal é que o jogador também tenha certa desenvoltura alfabética para já definir qual será a letra da jogada, de acordo com a tabela abaixo:

0 dedos: jogar novamente
1 dedo: letra A
2 dedos: letra B
3 dedos: letra C
Etc.

Recomenda-se utilizar as letras K e Y somente em grupos avançados (e desavergonhados). Caso a contagem extrapole as letras do alfabeto, não invente letras, comece do A novamente.

- Assim que a letra for definida, cada jogador deverá completar as colunas com palavrinhas que satisfaçam cada quesito e comecem com essa letra.

Obs.: É comum nos casos de jogadores com deficiência de alfabetização ou insegurança profunda o surgimento de perguntas inoportunas do tipo “umidade é com H?”. Também é razoavelmente normal que se inventem palavras ou itens inexistentes (a pior incidência é na categoria Cor, na qual jogadoras do sexo feminino trazem todo o repertório de tons de esmalte para o jogo),  “Eletrizante”, por exemplo, não é cor, ainda que a jogadora mostre os dedos e argumente. Café é uma bebida e não uma tonalidade de marrom. 

- O jogador que terminar primeiro deve gritar o nome do jogo e, assim, obrigar todos os demais a cessarem imediatamente suas escritas (sob pena de levarem pescoçadas).

- Inicia-se, então, a apuração. Nesse momento, cada um lê o que escreveu em cada categoria. Palavras repetidas ganham metade dos pontos, palavras únicas ganham pontos totais, ausência de palavras ou palavras inexistentes não ganham ponto.

Em nossa noite de loucura e jogos, sorteamos, primeiramente, a letra X (vale notar que jogávamos eu, Pedro, Sir Anthony e Dona Cesariana, não sabemos explicar como essa letra apareceu no sorteio).

Observe que, nessa rodada, ninguém gritou Stop porque:

- Ninguém lembrou de um poeta do século XVIII vítima de cirrose ou overdose que começasse com essa letra. Dona Cesariana escreveu somente X  e afirmou que há um rapper com esse nome e, segundo ela, todo rapper é poeta. Ela foi a única que pontuou na categoria.

Pontuação consolidada: Luciano 0 – Pedro 0 – Anthony 0 – Cesariana 10

- Filósofos: eu escrevi Xenófanes de Cólofon, Pedro e Anthony escreveram Xenofonte e Dona Cesariana preferiu não se manifestar nessa categoria.

Pontuação consolidada: Luciano 10 – Pedro 5 – Anthony 5 – Cesariana 10

- Elementos da tabela periódica (exceto Metais Alcalinos-Terrosos): todos escreveram Xenônio, exceto Dona Cesariana que escreveu Xerox

Pontuação consolidada: Luciano 15 – Pedro 10 – Anthony 10 – Cesariana 10

- Personagens do Lima Duarte: Só Dona Cesariana pontuou com "Xanthar" de Caminho das Índias, impressionados com a memória de D. Cesariana, os demais competidores não contestaram e só depois viram que o nome do personagem era Shantar, com Sh, aí era tarde demais...

Pontuação consolidada: Luciano 15 – Pedro 10 – Anthony 10 – Cesariana 20

- Animais Bípedes: Ninguém escreveu nada. Dona Cesariana disse ter escrito “Xipanzé”, mas espiamos na folha dela e não havia nada. Além disso, explicamos que Chipanzé é com CH.

Nas demais categorias, todos zeraram. Isso não nos desanimou, pelo contrário, ficamos empolgados e novamente sorteamos. Muitas outras letras interessantes saíram, o que nos rendeu grande aprendizado e uma boa dose de gargalhadas.

Principais lances e tira-teima: 

Sir Anthony pontuou duas rodadas seguidas com a mesma resposta. Ele colocou Baudelaire em Poetas do Século XVIII vítimas de cirrose ou overdose quando sorteamos a letra B e colocou Charles Baudelaire, horas depois, na rodada com a letra C. Ninguém notou nada no dia devido à bebedeira ao cansaço, mas, depois, uma rápida consulta às imagens gravadas permitiu detectar a fraude.

Na mesma rodada da letra C, ninguém lembrou de nenhum bípede, apenas Dona Cesariana que, desta vez, escreveu mesmo Chimpanzé.

Todos tentávamos lembrar filmes do Tarantino ou de Os Trapalhões na categoria Filmes TSDidi. Mesmo que fosse óbvio o nome de um filme do M. Night Shyamalan, ninguém escrevia para não se queimar com os colegas.

Por duas vezes, Tolentino colocou personagens do Zé Mayer na categoria Personagens do Lima Duarte, mas foi desmascarado por Dona Cesariana que conhece tudo do assunto.

A contagem final, depois de exaustivas jogadas, foi:

Pedro Tolentino: 255 pontos
Sir Anthony: 240 pontos
Dona Cesariana: 200 pontos
Luciano Milici: 100 pontos

O troféu Stop, Adedanha, Adedonha foi para o Pedro. Sugira novas categorias e acompanhe as próximas rodadas desse competitivo e emocionante jogo!
Lembre-se: #CopaÉparaOsFracos


Luciano Milici é escritor, gênio, bilionário, playboy e filantropo. Autor de A Página Perdida de Camões e Diário de um Exorcista. Para saber mais, visite: Google.





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