Thursday, March 13, 2014

O Pianista de Piano Bar

by Pedro Tolentino



Recentemente encontrei um amigo pianista (vamos chamá-lo de Alberto, um nome falso, para preservar sua identidade).  Hoje ele toca por diversão e trabalha em outra atividade completamente diferente, mas até alguns anos atrás a música era sua profissão.

O cara é muito talentoso: cursou conservatório, participou de algumas apresentações de música erudita, etc, mas o que pagava as contas da casa eram mesmo os cachês para tocar em restaurantes e, principalmente, em bares de Hotéis sofisticados, o obrigatório "Piano Bar".

Logo que nos conhecemos perguntei porque ele havia abandonado a carreira.


"Cara, acordei um dia e pensei: Chega! A partir de hoje eu nunca mais vou tocar New York, New York!"


O público típico de um Piano Bar, cuja idade média costuma girar por volta dos 50 anos, é composto predominantemente por:

- Hóspedes do hotel (geralmente homens em viagens de negócios)
- Homens locais em mesas com amigos homens (sem as esposas caso casados)
- Mulheres locais em mesas com amigas mulheres (sem os maridos caso casadas)
- Homens locais em mesas com mulheres mais jovens (normalmente amantes)

A presença de casais locais e oficiais é pequena, mas existe.

Os homens sozinhos costumam flertar com as jovens, mas no fim ficam com as coroas (até porque as jovens já têm dono).

As mulheres sozinhas costumam flertar com o pianista, mas no fim ficam com os coroas.

Esse é o público que o nosso heróico pianista tenta agradar.  Segundo a estimativa do Alberto, 25% do tempo de apresentação é gasto na execução de apenas 4 músicas:  New York New York, My Way, Fascinação e Emoções.  Na última hora da apresentação a participação destas 4 músicas pode chegar a 70% graças aos bêbados que nunca escutam e pedem a mesma música pela segunda vez.  O bêbado normalmente chega perto do pianista e pergunta: você sabe tocar aquela "Quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo..."?

O fato da última hora ser repleta de "replays" não é de todo mal, até porque a essa altura o pianista também está bêbado.  Um cliente simpático manda uma taça de seu vinho italiano, no minuto seguinte um outro manda uma dose do seu whisky 12 anos e um terceiro, após pedir um pagode do Raça Negra, manda um chopp, os três ficam olhando pro pianista esperando um brinde, após o brinde o pianista não pode fazer a desfeita de não beber os presentes que recebeu.  

O pior cenário é quando o cliente olha pro barman e pede um "drink especial" pro pianista. O barman, só de sacanagem, mistura todas as bebidas da coqueteleira com creme de leite, coloca um morango na porta do copo e manda pro pianista entornar.  Este, bebe tudo fazendo cara de quem está gostando, e ao terminar levanta o copo vazio pro cliente em sinal de agradecimento.

Enfim, o pianista sempre vai bêbado para casa pois ele é o "grande amigo" do cara que acabou de ser deixado pela mulher e que, pra não se sentir tão sozinho no seu sofrimento regado a álcool quer embebedar o músico de qualquer forma.  Além disso o gerente sempre atrasa o jantar do pianista pra obriga-lo a tocar além do horário e os clientes têm a firme crença de que se continuarem mandando bebida o pianista vai tocar até as 4 da manhã.

Ás vezes isso acaba acontecendo e o "melhor amigo" acaba convencendo o pianista a dar uma passadinha num Bordel ali perto.  Na próxima ida do cliente ao bar ele nunca lembra que tal fato ocorreu.  Se for com a esposa então, ele e o pianista agem como se nunca tivessem sido apresentados.

O pianista até tenta variar o repertório, de vez em quando o próprio bar tenta, criando coisas como "noite da comida árabe".  Neste episódio específico o Alberto passou uma semana preparando um repertório de música árabe.  Após duas músicas o gerente chegou junto e disse:  "Musiquinha chata pra cacete hein?".  Aos primeiros acordes de New York New York o gerente olha pro Alberto com um sorriso de orelha a orelha e fala:  "Agoooora!"

Perguntei ao Alberto se ele já chegou a negar pedido de música vindo de clientes. Ele falou que sim, poucas vezes, e citou uma ocasião onde o cliente colocou uma nota de R$ 1,00 em cima do piano e pediu pra tocar "Entre Tapas e beijos".

"Se fosse uma de R$ 50,00 eu até tocava", confessou Alberto.






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