Monday, March 10, 2014

O Filho Corporativo - Parte 02 de 02

by Pedro Tolentino
por encomenda do IBFI (Instituto Boraver de Futurologia Irresponsável)


Geração de Filhos: negócio de capital intensivo
e retorno de longo prazo
Este post é a segunda parte de um texto, é essencial a leitura prévia da parte 01, faça isso clicando no link abaixo:


Segue abaixo a parte 02:

...O governo, como principal interessado no crescimento populacional precisará intervir para que os incentivos corretos estejam presentes, não como executor (a lá "Admirável Mundo Novo"), mas como agente regulador.

O caminho está no subsídio, mas um subsídio inteligente, baseado na performance futura do filho corporativo. Ao remunerar um funcionário, assim como acontece hoje em dia, as empresas serão obrigadas a recolher um determinado valor em impostos, proporcional ao salário do empregado. Uma parcela significativa deste valor, no caso do funcionário ser um filho corporativo, seria repassado diretamente à empresa geradora.


 Desta forma a empresa geradora teria garantida a sua receita, e lidaria com um incentivo positivo, pois o quão mais bem sucedido fosse seu filho, maior o retorno futuro que esta empresa teria. Como o imposto seria recolhido igualmente para todos os funcionários (a alíquota para os filhos não corporativos seria igual, porém os recursos seriam repassados para uma espécie de previdência social), o funcionário não teria nenhum custo adicional por ser um filho corporativo, e nenhum tipo de dívida para com a empresa geradora. 

No caso de profissionais liberais os mesmos também seriam obrigados a recolher o referido imposto sobre o resultado de sua atividade, desta forma, independente da atividade exercida por seu filho no futuro, a empresa geradora teria a garantia de recebimento de um fluxo financeiro, o risco de inadimplência existiria, mas não seria maior que aquele referente à arrecadação de impostos por parte do governo. O sistema garantiria uma competição justa entre filhos corporativos e não corporativos, e um modelo sustentável de negócio para empresas geradoras. 

Para que o negócio de geração de filhos possa funcionar de forma condizente com os padrões legais do futuro precisaria ser alvo de constantes inspeções e avaliações, de forma a garantir que esses filhos sejam criados de forma condizente com a legislação cível em vigor. Teríamos uma espécie de “vara de família” traduzida para o mundo dos negócios. 

As empresas teriam responsabilidade total sobre seus filhos até uma certa idade, e a partir daí o filho seria graduado de seu período de formação podendo buscar uma atividade profissional de sua preferência. Por ser um negócio de capital intensivo com retorno de longo prazo seriam necessárias algumas linhas de crédito com taxas baixas para financiar o primeiros anos de atividade destas empresas. 

Levando-se em conta que estaríamos vivendo em tempos de pirâmide demográfica invertida e alta renda per capita, é de se esperar que o nível de poupança da sociedade a esta altura seja alto, o que torna viável o crédito barato. Apesar do retorno de longo prazo o risco seria relativamente baixo, pois poucos duvidariam da necessidade de capital humano e da existência de um mercado ávido por empregar estes novos filhos corporativos.

Uma empresa geradora de sucesso teria que ter uma alta capacidade de projetar as necessidades de capital humano para 20, 30 anos na frente, pois algumas características presentes na “safra” a ser produzida já poderiam ser estabelecidas desde o nascimento. O departamento de concepção (formado não só por especialistas em engenharia genética, mas também por estudiosos das ciências humanas e “futurólogos” em geral) teria o desafio de criar bebês com potencial adequado ao que se esperaria deles no futuro. 

Uma vez concebida a criança, os diversos departamentos de preparação se encarregariam de preparar os filhos de forma a maximizar o retorno futuro de cada um. Os profissionais de uma empresa geradora desempenhariam os papéis de pais, babás, professores e orientadores. Seriam profissionais altamente qualificados, pois, na ausência de pais no conceito estrito da palavra, seriam os principais responsáveis pela performance futura dos pupilos e, conseqüentemente, pelos retorno sobre investimento da empresa. 

O modelo traz incontáveis oportunidades para aqueles que se aventurarem neste novo “business” dentro de empresas geradoras ou de empresas “satélite”, que prestariam serviços às geradoras formando um “cluster” muito parecido com o que é observado hoje com as montadoras de automóveis. Não está claro qual será o modelo de negócios “vencedor”, pois enquanto algumas geradoras preferirão se especializar (criando safras de filhos “padronizados” de forma a ganhar escala), outras optarão por diversificar (apostando que um convívio plural traz vantagens num mercado de trabalho cada vez mais focado em inovação), enquanto algumas procurarão se “verticalizar” (aproveitando as sinergias da cadeia), outras optarão por focar no “core” e terceirizar serviços adjacentes. 

Outra escolha importante é onde atuar, pois evidentemente existirá mercado para empresas em diversos nichos, desde formadoras de mão de obra mais básica (cujo investimento em educação e treinamento seria mais baixo, e os retornos, por sua vez, também), até “boutiques” geradoras, que trabalhariam com um número reduzido de “super high potentials”, apostando em altos retornos futuros. Ao contrário do que poderia prever Aldous Huxley, porém, não acredito que existirá muita demanda por seres humanos com qualificação muito baixa (os Ipsilones de AMN), uma vez que para as tarefas mais banais a automação provavelmente representará uma opção mais barata frente ao alto capital empregado para gerar e criar um filho. 

Estabelecidas as leis e as medidas regulatórias necessárias, porém, é de se esperar que a empresa geradora acabe tendo com o filho uma relação mais forte do que aquela estabelecida por lei. Lembremos que este grupo de crianças conviverá de forma intensiva entre eles, criando um vínculo quase que “familiar” entre o grupo. É de se esperar que a “Turma de 2105” dos formandos da Geradora X se torne muito mais próxima do que uma turma de formandos de colégio ou faculdade, por terem vivido por cerca de vinte anos como verdadeiros irmãos.

Bom, como disse o Marty Mc Fly ao final do seu solo de guitarra (Johnie B Goode) no baile da escola dos pais em 1955, uma cena clássica do filme "De Volta para o Futuro":  Talvez vocês ainda não estejam preparados para isso, mas seus filhos vão adorar...

Clique aqui para ver post sobre o filme De Volta Para o Futuro






 curta o post

 curta o blog