Sunday, March 09, 2014

O Filho Corporativo - Parte 01 de 02

by Pedro Tolentino
por encomenda do IBFI (Instituto Boraver de Futurologia Irresponsável)



Mesmo que as pessoas das próximas gerações sejam mais bonitas, mais inteligentes e mais bem preparadas, temos que encarar o fato de que elas virão em menor número.

Hoje um terço dos países do mundo já apresenta taxas de fecundidade abaixo de dois filhos por mulher (o mínimo necessário para garantir a reposição da população no longo prazo).  A previsão da ONU é que a população mundial atinja um nível máximo de 9,5 bilhões de habitantes, por volta de 2070, e a partir daí, comece a diminuir. No Brasil a população pode começar a diminuir em apenas 30 anos.

A princípio é natural que esta tendência seja vista com bons olhos (por evitar que a população global chegue a níveis perigosos), mas as conseqüências de uma redução drástica na taxa de fecundidade traz problemas graves, como por exemplo o envelhecimento acelerado da população. Por mais que uma melhor qualidade de vida proporcione às pessoas uma vida produtiva mais longa, a humanidade sempre precisará de renovação.  


Talvez um dia a tendência de queda na taxa de fecundidade (exacerbada ainda mais pelo conceito de "filho coletivo", já explorada neste blog) precise ser invertida.

A princípio acredito que a tecnologia vai conseguir manter o crescimento do PIB mundial por algum tempo mesmo em um cenário de população decrescente, um situação altamente positiva se o que estamos buscando é o crescimento do PIB per capita (uma vez que o numerador estará aumentando e o denominador diminuindo ao mesmo tempo).  Este cenário, porém, se tornará insustentável à medida em que a pirâmide populacional se inverte (com os idosos representando uma parcela cada vez maior da população) e a queda populacional se torna uma ameaça à continuidade (ou pelo menos à prosperidade) da espécie humana.

A partir do momento em que este problema se torna global (e deixa de ser um problema restrito a alguns países mais desenvolvidos), políticas de incentivo à imigração deixarão de fazer sentido, ou se tornarão muito caras uma vez que todos os países estarão fazendo o mesmo. O capital humano se tornará o recurso mais escasso.  Também não acredito que os governos nacionais terão a força política que têm hoje, até porque mundo precisará cada vez mais de soluções globais, incompatíveis com a estrutura geopolítica atual.  

A princípio a solução mais óbvia seria criar algum tipo de incentivo para as pessoas terem filhos, como isenções fiscais, benefícios, ou até mesmo pensões governamentais.  Este modelo, porém, apresenta uma falha grave, pois por traz dele existe um incentivo perverso. Naturalmente as pessoas que estariam dispostas a ter um filho só para receber uma pensão do governo seriam aquelas menos preparadas para tê-los. 

Em um mundo onde o capital humano será cada vez mais importante não é inteligente selecionarmos as próximas gerações através de um darwinismo às avessas, onde só os menos preparados sobrevivem.

A solução é ao mesmo tempo simples e controversa: Pessoas jurídicas adquiririam o direito de conceber e criar filhos. 

Esta idéia pode parecer absurda para um leitor do início do século XXI, que ainda não sentiu na pele as conseqüências de uma população decrescente e de um envelhecimento acelerado da população.  Além disso, tendemos a confundir a idéia do filho corporativo com algum tipo de escravidão, onde um ser humano “pertenceria” a alguma instituição, estando preso a ela para sempre num esquema de trabalho forçado.  Longe disso, os filhos corporativos serão até mais “livres”, no sentido econômico da palavra, do que os filhos não corporativos, aqueles criados dentro de famílias dos modelos mais diversos.

Para aceitar o modelo do filho corporativo a sociedade exigirá uma legislação que proteja os direitos individuais do ser humano, não imagino que tenhamos um retrocesso neste sentido, por isso mesmo acredito que um sistema de semi-escravidão, que tolha a liberdade individual, não terá mais vez na sociedade do futuro, pois se tornará um conceito tão ultrapassado como o do colégio interno, discutido anteriormente no post "Resort Educacional".  

O desafio de montar um arcabouço jurídico que permita que corporações funcionem como geradoras e criadoras de seres humanos, lucrem com esta atividade, e ao mesmo tempo garantam a liberdade incondicional dos seus descendentes não será fácil, nem trivial.  O governo, como principal interessado no crescimento populacional precisará intervir para que os incentivos corretos estejam presentes, não como executor (a lá "Admirável Mundo Novo"), mas como agente regulador.

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