Saturday, March 15, 2014

Nuvem: tá todo mundo lá!

By Pedro Tolentino
por encomenda do IBFI (Instituto Boraver de Futurologia Irresponsável)
Escritório futurista com decoração "celestial"
Num futuro próximo "estar" ou "não estar" é que será a grande questão (em inglês não precisa mexer na fala de Hamlet porque "To be or not to be" serve nos dois contextos).
Exceto no caso de trabalhadores braçais (que serão minoria devido à constante automação dos processos) e de profissões que exigem o contato humano (médicos, dentistas, atletas de esportes coletivos, etc.), o vínculo físico com o local de trabalho deixará de existir. 
Devido às novas tecnologias de comunicação on-line, conversar com uma pessoa "ao vivo" ou através de algum aparelho (chamem de "tele presença" ou algo do tipo), fará pouca diferença. A cultura de fechar negócios ou fazer reuniões com a presença física das pessoas é coisa da nossa geração (as próximas gerações não terão esse nosso "apego" à conversa "cara a cara"), em breve o local de trabalho será 100% virtual não só para profissionais liberais, mas também para executivos. 
A consequência natural disso é que grande parte das pessoas não precisará mais morar no mesmo local em que trabalham. Muitas empresas não estarão sediadas em um determinado "lugar".  Funcionarão on-line, 24 horas por dia, e nossos colegas de trabalho, na prática, poderão estar em qualquer parte do mundo.

O fim do “horário de trabalho”
Com os diferentes fusos horários envolvidos no dia a dia de uma empresa virtualmente relacionada mas fisicamente separada, é de se esperar que o tradicional "horário de trabalho" perca o sentido.  Para sincronizar horários  funcionários nos quatro cantos do mundo vão se adaptar para se comunicar com pares, clientes, chefes e subordinados. Cada um terá uma agenda um tanto confusa, mas interessante, já que irá intercalar tempo de trabalho e lazer de uma forma bem mais flexível.  Não fará muito sentido ir à academia "após o trabalho" se você trabalha em casa, e tem compromissos virtuais nos horários mais diversos com seus colegas que moram na Alemanha, 5 horas na frente. 
Ao invés disso nos adaptaremos para cumprir as atividades diárias ao longo de uma jornada de vinte e quatro horas cheia de “recreios”, quando dormiremos e encaixaremos nossas atividades de lazer.  Nossas agendas se parecerão cada vez mais com um queijo suíço e talvez o nosso hábito de dormir apenas uma vez por dia por sete ou oito horas seja substituído por “siestas” mais  curtas e espalhadas.  
O fim da hora do rush e da sazonalidade no transporte
O trânsito é um problema que assola a maioria das grandes cidades, e muitas vezes atribuímos o problema à escassez de avenidas, viadutos ou opções de transporte coletivo.  Quem costuma dirigir às 2 horas da madrugada, porém, deve perceber que, especificamente neste horário, a escassez de ruas e avenidas não parece ser tanto um problema. Gasta-se, neste horário, cerca de 10 minutos para percorrer uma distancia que na “hora do rush” poderia levar até uma hora.
O problema do trânsito, por mais estúpido que esta afirmação possa parecer, se deve basicamente a um motivo:  Todos querem chegar aos mesmos lugares nos mesmos horários.
A solução para o problema do trânsito não virá da infra estrutura de transportes, e sim da tecnologia da informação, que nos permitirá trabalhar de casa, em qualquer horário, e restringir eventuais idas e vindas ao estritamente necessário, nos horários mais diversos.  Menos gente se movimentando, por distancias mais curtas e em horários mais bem distribuídos, eventualmente chegaremos à conclusão que temos ruas e avenidas demais, e não de menos.
E as cidades? As cidades atrairão as pessoas menos pelas oportunidades profissionais que oferecem, e mais pelo estilo de vida que proporcionam a seus moradores.  Torna-se possível realizar o sonho de muitos moradores das grandes cidades: morar em um lugar mais "tranqüilo".  Um dia desses ouvi que 42% dos moradores de São Paulo  gostariam de deixar a cidade, que bênção seria se estes moradores efetivamente saíssem, tanto para eles como para aqueles que ficam (e ninguém perdeu o emprego).
As cidades não deixarão de existir, pois ainda haverá a necessidade de centros de serviço, onde as pessoas possam usufruir de ambientes físicos de convivência e ter acesso a serviços onde a interação física ainda é necessária.  Além disso, não acredito que uma parcela considerável da população resolva se isolar em lugares remotos no momento em que seu trabalho se tornar geograficamente independente.  O que ocorrerá, no entanto, é que as pessoas escolherão onde querem morar, ao invés de deixar esta decisão ser "escolhida" pelo mercado de trabalho.  O próprio conceito de residência fixa deixa de ser obrigatório, pois os de temperamento mais errante poderão passar a vida viajando pelo mundo enquanto continuam trabalhando normalmente.  
Aqueles que são apaixonados por Paris, mas que atualmente não podem se dar ao luxo de largar tudo por aqui e, atualmente, precisam se contentar com curtas temporadas na cidade luz durante as férias, poderiam passar temporadas de meses, ou até anos por lá, fazendo o mesmo trabalho que fariam em São Paulo, Tóquio ou Jericoacoara.
As pessoas não deixariam de viajar, mas dois dos motivos atuais das viagens deixariam de existir. Para que viajar "de férias" se eu posso ir para qualquer lugar do mundo e continuar trabalhando normalmente? Para que viajar "a negócios" se todos os negócios podem ser resolvidos sem sair de casa? As viagens seriam feitas para proporcionar o encontro físico das pessoas, quando elas assim desejassem.  
Quem sabe um dia ainda vamos ridicularizar os engarrafamentos nas estradas nas vésperas de feriado que ocorriam no início do século XXI... 





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