Thursday, March 14, 2013

Por que todos são legais nas redes sociais?


É com grande satisfação que o boraver.com publica seu primeiro texto escrito pelo amigo Luciano Milici, ao contrário do editor e demais autores, um bando de fanfarrões, Luciano escreve de verdade e tem até livro publicado (ver link no final do texto)

by Luciano Milici


Macacos me curtam!!
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Os Titãs não foram completamente corretos quando afirmaram que "desde os primórdios até hoje em dia, o homem ainda faz o que o macaco fazia", afinal, nunca ninguém flagrou um símio tirando cera da orelha com caneta Bic™, tropicando em uma elevação da calçada para depois disfarçar com uma corridinha sem graça e, principalmente, mentindo nas redes sociais.

Sim, a mentira é o insumo básico das redes sociais. Não posso precisar estatisticamente, mas nada me impede de mentir que quase 99% dos usuários de redes sociais mentem. Também não seria possível realizar uma pesquisa global sobre esse tema perguntando ao entrevistado: "Você mente?". Afinal, os pesquisadores não saberiam o que assinalar, independentemente da resposta.

Você mente?

(  ) Sim, minto, mas agora estou sendo sincero (quem vai acreditar?)
(  ) Sim, minto. Inclusive, agora estou mentindo (alerta de paradoxo)
(  ) Não, não minto. Inclusive, agora estou sendo sincero (jamais saberemos)
(  ) Não, não minto, mas agora resolvi começar (indecifrável)


Apesar dessa triste verdade, acredite que o mundo nem sempre foi assim. As redes sociais, como sabemos, nasceram com os primeiros seres humanos lá na pré-história. Sentar-se em torno da fogueira junto aos colegas de tribo que tinham os mesmos interesses era o equivalente a ser aceito em uma comunidade do Orkut. Havia a fogueira dos carnívoros, a dos herbívoros, a dos caçadores, a das crianças e, obviamente, as mistas, nas quais o pessoal perguntava no rudimentar idioma "beija ou passa pra frente?" ou "quantas curtidas essa neardental merece?".

Sim, os pré-históricos já curtiam, já seguiam e já compartilhavam. Só não cutucavam porque as clavas eram letais. Nesses remotos períodos, formaram-se os primeiros agrupamentos em comunidades de indivíduos com gostos similares e também ocorreram os primeiros casamentos civis entre homos erectus do mesmo sexo. Desprotegido do anonimato da tela de computador e dos e-mails gratuitos do BOL™, era muito mais difícil mentir e, por conseguinte, se destacar gratuitamente nas redes sociais pirocentradas (1). A completa ausência de tecnologia não permitia ao jovem da tribo fotografar um mamute morto e publicar a imagem aperfeiçoada com filtro afirmando "Eu mesmo matei". Tudo era na raça. O bom tinha de ser bom sem uso de Photoshop™ e a verdade, portanto, prevalecia.

O tempo passou e os Flintstones, o Capitão Caverna, os Sleestaks e o Corcel II já não mais caminham pela Terra. Muita coisa mudou, melhorou e evoluiu, como as ciências, as artes, o entretenimento e a própria magia. As redes sociais, porém,  – que por um lado ganharam uma aliada poderosa chamada interwebz – retrocederam astronomicamente no quesito "sinceridade olho-no-olho senta aqui no colinho do papai".

Hoje, as pessoas não querem mais ser felizes. Elas querem parecer felizes. Querem ser consideradas felizes pelos outros, já que por si mesmas a coisa tá braba. Como diria a menina do show do Restart™ "puta falta de baixa autoestima". Para construir esta imagem, usa-se e abusa-se da mentira, que é o maior presente que o diabo nos deu. Dá-lhe, então, uma enxurrada de fotos (com filtro, por favor) de pessoas em locais como Paris, Buenos Aires e Egito, ou praticando atividades invejáveis como pilotar caças, mergulhar em Bonito ou dirigir DeLoreans.

Sim, é revoltante. Mentimos e, ao mesmo tempo, nos indignamos com a mentira alheia que mostra que a felicidade do outro é alguns centímetros maior que a nossa e algumas polegadas mais grossa. 


nesse aqui ninguém dá "check-in"
Onde está, em nome de Deus, a pessoa verdadeira, a pessoa raiz, aquela malemolente e moleque? Ninguém mais usa Rider™? Ninguém toma injeção? Ninguém vai para Osasco, nada de boia na represa ou aconchega-se na calorosa e perfumada axila esquerda encharcada de desodorante Avanço™ de um servente de pedreiro chamado Joelson torcedor do Santos, em um ônibus parado na Faria Lima em pleno horário de rush em uma quarta-feira chuvosa, após o carro ter quebrado e os desgraçados do seguro negarem o veículo extra (só um exemplo)? Ora, ninguém mais sofre?

As redes sociais dizem que não, mas é claro que isso é mentira.

Se, ao menos, a máxima “se não tem algo de bom para dizer, não diga nada” fosse seguida, vá lá, mas não é isso que ocorre. As pessoas seguem a regra: mostre aos outros que você é feliz e, se não tiver como mostrar, compartilhe imagens, mensagens, frases e fotos que preencham a imensa lacuna negroburaquiana(2) que sua ausência deixa. Ou que você ACHA que deixa, mas que não deixa porque ninguém se lembra de você. Ninguém, exceto quem pensa em você toda hora, que não precisa das redes sociais para lembrar seu aniversário, que conhece seus gostos, que sabe fazer você rir e protege você de seus maiores medos, ou seja, o Roberto Carlos sua mãe.

A partir de hoje, antes de mentir nas redes sociais, lembre-se do velho homem das cavernas, de Osasco e do neologismo negroburaquiano criado exclusivamente para esse texto. Quem sabe, assim, você minta um pouco menos? Você não ganhará mais seguidores e fãs, mas estará  muito bem com a pessoa mais importante na sua vida: o Joelson você mesmo.

(1) Reuniões com uma fogueira no meio
(2) Lacuna do tamanho de um buraco negro

Link para a fan page do último livro de Luciano Milici: 

A Página Perdida de Camões