Monday, March 18, 2013

Eduardo, Mônica e coisas sobre o Planalto Central


By Luciano Milici

Eduardo e Mônica se encontraram anos depois
no "Saia Justa"
Todo mundo sabe que o rock´n roll foi inventado em 1955, no baile “Encanto Submarino”, quando Martin McFly tocou Johnny B. Goode que era, até então, inédita para todo o mundo menos para ele. A partir daí, muita coisa linda foi inventada nos gêneros e subgêneros das rochas rolantes. Aqui, esculachamos a bela canção Eduardo e Mônica.

Antes de tudo, anote: eu gosto do Renato Russo, adoro Legião Urbana e amo a música em questão. Está em debate aqui a corrente filosófica oriental pré-cristã conhecida como zuera. Só isso.

É de conhecimento geral e foi amplamente divulgado em toda a mídia impressa, falada e copiada, aquele fim de semana em que fiquei preso em uma loja de CD, vinil, fitas cassete e instrumentos musicais para forró e arrocha. Então, nesses três dias de sodomia auditiva, pude refletir com serenidade a respeito das obras do cancioneiro universal. Hoje conto o que pensei sobre Eduardo e Mônica.



Título: Eduardo e Mônica. Ótimo. Nomes populares, casal de dois, gêneros opostos (algo comum na época). Fez a alegria de alguns e o inferno de outros que portavam esses nomes em seus documentos.

“Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?” – Excelentes perguntas. Quem, um dia, irá dizer essas coisas? Quem? Você sabe?

“Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar, ficou deitado e viu que horas eram” – O que aprendemos aqui? Edu é preguiçoso, tem rádio-relógio e pode se dar ao luxo de permanecer na cama. Essa constatação é superficial conforme comprovo mais adiante. Você verá que Eduardo era um exímio administrador do tempo.

“Enquanto a Mônica tomava um conhaque no outro canto da cidade, como eles disseram” – Sim, Mônica era pé-de-cana. Tudo bem. Quem nunca tomou um Dreher, um Presidente ou um Dom Bosco às seis da manhã em um boteco esquecido por Deus? Deduzimos, aqui, que essa ação se passe pela manhã, correto? Ou Eduardo é insone e abriu os olhos, mas não quis se levantar, às três? Nesse caso, ele não deveria mesmo querer se levantar, pois era alta madrugada. Também é interessante notar que foi feita uma acareação entre os dois indivíduos que, a posteriori, afirmaram que as duas ações ocorreram concomitantemente. Provavelmente, usaram isso como álibi em alguma questão penal referente ao período em que ainda não se conheciam.

“Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer” – Edu e Mô não queriam se encontrar, mas rolou. Já que estavam lá, decidiram conversar muito para tentar, repito, tentar se conhecer. Geralmente, para conhecer alguém, você diz seu nome e ouve o da pessoa. No caso deles, porém, foi necessário conversar muito. Vale ressaltar o esforço de duas pessoas que se encontraram sem querer, algo raro, uma vez que sempre encontramos pessoas que queremos. Basta mentalizar, não é mesmo, Megan Fox?

“Um carinha do cursinho do Eduardo que disse ´Tem uma festa legal e a gente quer se divertir” – A princípio, você acha que o amigo do Eduardo é um ser irrelevante na existência. Um coadjuvante desses que Deus cria só para preencher a cena ou o vagão do metrô que, normalmente, está vazio. Se fosse importante, o sujeito teria um nome. Não seria apenas “carinha”. Porém, uma análise mais acurada comprova que o tal “carinha” era, na verdade, o mestre, o dono, o feitor de Eduardo, afinal, ele domina Edu a ponto de impor a ele o que ele deve sentir “A gente QUER se divertir, entendeu? A gente quer se DIVERTIR. Não queremos comer, dormir ou fugir desse calabouço, apenas se divertir”. Ah, fica claro que Eduardo faz cursinho. Ainda não sabemos se é Objetivo, Etapa, Poli, Intergraus, Anglo ou Poliedro.

“Festa estranha, com gente esquisita” – quando a música foi escrita, ainda não havia raves ou micaretas, por isso o estranhamento.

“Eu não tô legal, não aguento mais birita” – birita: s.f. 1. Bebida alcoólica. Era a maneira com que os jovens referiam-se à pinga nos anos 80 e 90. Hoje, o termo foi relegado aos borracheiros e donos de banca de jogo do bicho. Note que Eduardo não estava acostumado a encher a lata e, por isso, pediu arrego. Sinônimos: água-que-passarinho-não-bebe, apaga-tristeza, a-que-incha, a-que-matou-o-guarda, baronesa, birinaite, branquinha, café-branco, cana, canjebrina, chora-menina, cobertor-de-pobre, cura-tudo engasga-gato, filha-do-engenho, goró, lágrima-de-virgem, marvada, pé-de-briga, péla-goela, purinha, rabo-de-galo, saideira, teimosa, tira-vergonha.

 “E a Mônica riu e quis saber um pouco mais sobre o boyzinho que tentava impressionar” – Esse foi o tal “encontro sem querer” supracitado. Mônica tinha desejos sádicos e achava engraçado o sofrimento alheio. O fato de ela achar Eduardo um “boyzinho” se dá à fraqueza ante as bebidas alcoólicas, fazer cursinho, acordar cedo e ter um mestre que diz o que ele quer sentir. Na época, também, “boy” referia-se ao garoto que tramitava documentos entre empresas, saltava do ônibus sem pagar e ficava nos extintos fliperamas no intuito de executar uma meia-lua com soco alto no jogo Street Fighter para acionar o golpe Tiger Robocop (ver officeboy). Não confundir com boy-magia e outros termos atuais que usam a palavra (ver a loca).

“E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa ´É quase duas, eu vou me ferrar” -  Como assim, produção? Ele não aguenta mais “birita”, mas está apenas “meio tonto”? Não entendi. Ele devia estar muito tonto, pois já estava vendo tudo dobrado. Ele estava vendo duas Mônicas! E ele mesmo afirma “É quase duas, eu vou me ferrar”. Vamos desconsiderar o fato de que o correto seria “são quase duas” e nos ater ao terror de que ele estava vendo quase duas garotas (provavelmente, uma garota amalgamada a outra, tal como as gêmeas xifópagas)! À medida que as duas garotas se separavam, tornando-se duas, ele deveria sentir-se excitado, porém ele se assustou e sentiu-se ameaçado pela possibilidade de um ménage-a-trois. “Vou me ferrar”, afirmou, já imaginando que sobrariam artefatos em seus orifícios.

“Eduardo e Mônica trocaram telefone, depois telefonaram e decidiram se encontrar” – Não se iluda. Eles não fizeram um escambo de aparelhos celulares, como o termo sugere. Na verdade, eles passaram os números telefônicos de suas residências um para o outro e vice-versa. Sim, na época não existiam celulares e o costume pré-acasalamento juvenil era informar o número da casa e depois ficar ao lado do aparelho esperando a ligação. Dizer “Me add no Orkut” ou “Anota aí meu MSN” não significava nada, uma vez que essas tecnologias não existiam.

“Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard” – Acredite: o melhor convite a uma garota pinguça que toma conhaque às seis da manhã não é comer bauru em uma lanchonete. Errou, Edu! Ela, por sua vez, deixou claro que queria dar uns amassos, pois levou o inexperiente rapaz a um cinema provavelmente vazio onde se exibia um filme insosso da Nouvelle Vague dirigido pelo imortal Jean-Luc Godard. Já dizia minha avó, o único Jean-Luc que sabe dirigir é o Jean-Luc Picard (ver Google).

“Se encontraram então no parque da cidade, a Mônica de moto e o Eduardo de "camelo", Eduardo achou estranho e melhor não comentar mas a menina tinha tinta no cabelo” – Por que não se encontraram na casa de um deles, na lanchonete ou no cinema? Camelo, no caso, é ônibus, certo? Por que o Eduardo não entendeu o fato de as mulheres tingirem o cabelo? E, pior, por que achar estranho e não comentar? A relação mal começou e já estava permeada de mentiras.

“Eduardo e Mônica eram nada parecidos, ela era de Leão e ele tinha dezesseis” – É sabido que pessoas de Leão pulam a idade dos dezesseis anos, por isso, o poeta assinalou essa importante diferença.

“Ela fazia medicina e falava alemão e ele ainda nas aulinhas de inglês” – Mônica podia ter algum tipo de atração pelas experiências genéticas nazistas, conforme o verso indica. Ao mesmo tempo, Eduardo alternava o cursinho com alguma escola de inglês ´The book is on the table´.

 “Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud” – Na verdade, ela estava solteira há bastante tempo.

“E o Eduardo gostava de novela e jogava futebol-de-botão com seu avô” – Ele, por sua vez, era virgem e a família fazia questão de deixá-lo tomando conta do senil e centenário vovô que, por conta do Parkinson, sempre queimava os jogadores do próprio time no jogo de botão.

“Ela falava coisas sobre o Planalto Central, também magia e meditação” – Sim, ela jogava fumaça para o alto e não era o Planet Hemp e nem o Vaticano.

“E o Eduardo ainda tava no esquema escola, cinema, clube, televisão” – Caraca. E não está bom? Olha só a vida saudável do garoto: escola, cursinho Etapa, inglês, cinema (exceto Godard), clube e televisão. Agenda cheia, galera.

“E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente, uma vontade de se ver, e os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia, como tinha de ser” – Já levantaram teorias sobre a Mônica ter viciado Eduardo em algum tipo de entorpecente, mas a verdade é que a psique frágil de garoto de apartamento simplesmente substituiu seus antigos donos (mamãe, papai, vovô e o mestre) por outra personalidade dominante: Mônica.

“Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato, e foram viajar” – Estranhamente, a fase em que todo casal enclausura-se em um antro de amor e lascívia foi substituído por compromissos que envolviam atividades manuais e corporais. Natação era para o Edu queimar energia. Era a forma descolada por Mônica para que o recém-desvirginado abrandasse seu fogo viril. Teatro foi a desculpa que Mônica arranjou para tornar Eduardo mais moderno e quebrar certas barreiras de timidez e preconceito, tais como beijar garotos, etc. Artesanato é reconhecidamente o jeito com que os neo-hippies sustentam seus vícios nas calçadas dos grandes centros, é provável que o casal estava se preparando para o comércio de colares de miçanga. Já o “viajar” pode se referir ao conceito psicodélico do termo. Ainda assim, perdura a questão: como Eduardo arranjou tempo para ir para escola, cursinho, natação, cinema, clube, fotografia, teatro, artesanato, ver televisão, viajar e ainda jogar futebol-de-botão com seu avô?

“A Mônica explicava pro Eduardo coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar” – Evidentemente, ela queria que ele se transformasse no Capitão Planeta.

“Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar (não!)” – Que profissão é essa que exige cabelos compridos e facilidade com bebida? Qual é o emprego que gera tamanha dor, a ponto de ouvirmos Eduardo gritar “Não!”? Ficam aqui as questões para reflexão.

“E ela se formou no mesmo mês, que ele passou no vestibular” – Sim, ela terminou a faculdade de medicina de onde desviava remédios e substâncias ilícitas. Ele, por sua vez, conseguiu passar no vestibular graças ao cursinho. Era um prodígio, o rapaz.

“E os dois comemoraram juntos e também brigaram juntos, muitas vezes depois. E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz” – Eles casaram e começou a vida padrão de brigar, fazer as pazes e comer arroz com feijão todos os dias.

“Construíram uma casa há uns dois anos atrás, mais ou menos quando os gêmeos vieram” – Aqui, entendemos que eles também cultivavam habilidades de pedreiros (aperfeiçoadas no curso de artesanato) e que Zan e Jayna os ajudaram e montar a casa. Jayna, algumas vezes, assumia a forma de um pterodátilo, noutras, de um gorila. Já Zan restringia-se uma poça de água ou um balde de gelo. Outra teoria para essa passagem é a de que os gêmeos, talvez, fossem filhos deles que nasceram há dois anos atrás. Dois anos. Guarde bem isso: os filhos deles nasceram há dois anos.

“Batalharam grana, seguraram legal a barra mais pesada que tiveram” – Ela, como médica que falava alemão e sabia tudo sobre o Planalto Central, magia e meditação e ele, que falava inglês, conhecia telenovelas como ninguém e sabia administrar o tempo de maneira exemplar, passaram grandes dificuldades financeiras. Nessa hora, limitavam-se a tirarem fotos em poses artificiais de alegria (habilidades aprendidas nos cursos de fotografia e teatro, respectivamente).

“Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília, e a nossa amizade dá saudade no verão” – Sim, meus caros, eles voltaram a morar em um veículo, pois não tiveram condições de sustentar a casa recém-construída. Renato Russo, por sua vez, cortou relações com o casal nos meses quentes por causa do forte odor que eles exalavam dentro do apertado veículo. Nos demais meses, a convivência era possível, mas, no verão, a amizade ficava só na saudade.

“Só que nessas férias, não vão viajar, porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação” – Vejam que Renato Russo frisou bem o termo “filhinho do Eduardo”. Isso, porque o rapaz havia concebido uma criança fora do casamento, com certeza. A prova está no fato de que uma criança, para ficar em recuperação, deve estar em idade escolar compatível com essa condição (crianças com menos de seis anos não estudam e crianças com menos de dez não ficam em recuperação). Sabemos que os gêmeos têm dois anos, apenas, certo (vide dois parágrafos acima)? Fica aqui, provado, que Eduardo não era tão ingênuo quanto a música tentou provar.

(Nota do Editor:  Agora tenho certeza que tudo faz sentido)

Luciano Milici

Fã da Legião Urbana e autor de “A Página Perdida de Camões”

www.lucianomilici.com

www.apaginaperdidadecamões.com.br