Monday, March 04, 2013

Cenas antológicas do cinema - Rambo II e seu "humor involuntário"


by Sir Anthony


Rambo: a guerra só acaba quando o juíz apita
Depois do estrondoso sucesso do post “No Escurinho do Cinema - avaliação dos resultados do Oscar por dois caras que não viram os filmes”, não faltaram propostas de estúdios querendo que a gente avaliasse o possível sucesso de publico e crítica de seus roteiros antes de começarem a filmar (o que é uma bobagem; a Lei Rouanet está aí pra isso mesmo), além de um sem-número de convites para participar de talkshows e marcar presença nas festas mais descoladas, daquelas com direito a encher a cara como se não houvesse amanhã, na base do open-bar, pelo menos é assim que eu me lembro. A parte do encher a cara eu tenho certeza, os outros detalhes podem ter sido um pouco diferentes. Mas isso é o que menos importa.

A grande questão pra mim era saber que rumo seguir a partir de toda a repercussão e credibilidade alcançadas.  Em termos mais práticos:  como fazer outro post bacaninha, sem ser acusado de repetitivo & autorreferente, mas, ao mesmo tempo, observando a máxima de que em time que está ganhando não se mexe? Já que o post anterior foi sobre filmes que não havíamos assistido, as saídas possíveis eram duas: escrever sobre filmes que assisti ou fazer crítica de outras coisas que desconheço. A segunda ideia, de certa forma, é o conceito do post “Boraler? Livraria de Aeroporto” o qual pretendo retomar em breve, com calma, dada a enorme popularidade dos livros que eu não tenho qualquer intenção de ler. Mas, por agora, achei mais fácil falar sobre as cenas antológicas de “humor involuntário” (aquela piada que, teoricamente, não era pra ser uma piada) em filmes conhecidos.


O material é abundante e eu ainda poderia me inspirar na estrutura do posts “Filosofia da Sessão da Tarde”, que você encontra aqui mesmo no boraver.com. Plágio? Que nada! Ou vocês acham que o foi o Andy Warhol que inventou a sopa enlatada? Vamos lá:

Rambo II – A Missão (Rambo: First Blood Part II) – 1985 

Sylvester Stallone (John Rambo), Richard Crenna (Cel. Sam Trautman), Julia Nickson (Co-Bao), Charles Napier (Marshal Murdock). Roteiro de Sylvester Stallone e James Cameron. 

A Trama: No primeiro filme, ficamos conhecendo John Rambo, condecorado veterano de guerra e traumatizado sobrevivente de um campo de prisioneiros no Vietnam. De volta a América, tem dificuldade em se readaptar à vida civil e acaba detido por vadiagem, desacato a autoridade e agressão. Foge, dribla a marcação, e comete outros delitos leves, como furtos, lesões corporais, destruição de uma cidade de pequeno porte e crueldade contra animais diversos. No livro em que o roteiro se baseia o herói acabou morto, mas na versão cinematográfica, Rambo, depois de humilhar a policia, a Guarda Nacional e o exercito dos EUA, foi apenas preso (e pro inferno ele foi pela segunda vez). O motivo da mudança vocês já sabem. 

O segundo filme, que é o que nos interessa, retoma daí, mostrando a vidinha tranquila de Rambo na prisão até a chegada do Coronel Trautman. Ex-comandante de Rambo, Trautman conta a ele que existem rumores da existência de prisioneiros de guerra americanos no Vietnam. Percebam: o filme é de 1985, a guerra terminou em 1975. Naquela altura, creio que quaisquer informações que os vietcongs ainda não tivessem conseguido extrair dos prisioneiros, certamente teriam pouquíssima utilidade; e como eles nunca se dignaram a negociar uma libertação, só podemos presumir que estavam fazendo isso por pura sacanagem. Uma pirraça dessas o Tio Sam não podia deixar passar assim, de graça. 

Como naquela época a praxe ainda era checar esse tipo de informação antes de iniciar uma ofensiva militar, “a missão”, que dá nome ao filme, seria de grande simplicidade: descer de paraquedas na mata, tirar umas fotos dos prisioneiros e voltar pra casa, tudo na moita, sem disparar um tiro. A coisa toda provavelmente se resolveria sozinha assim que o Tribunal de Contas norte-vietnamita tomasse ciência desse absurdo desperdício do dinheiro do contribuinte. A OTAN, claro, não conseguiu pensar em ninguém melhor para a tarefa do que Rambo, que havia mostrado toda a sua sutileza e discrição no primeiro filme. O Coronel tinha uma passagem, ia perder a viagem, mas John Rambo foi lhe salvar; em troca, seria libertado e reincorporado ao exercito. 

Já no QG do exercito, Rambo conhece o oficial Marshal Murdock, burocrata covarde que comanda a operação e retruca: "Não boto bomba em banca de jornal/ Nem em colégio de criança, isso eu não faço não/ E não protejo general de dez estrelas/ Que fica atrás da mesa com o cu na mão". Depois de acalmado por Trautman, Rambo finalmente cede, diante da idéia de trocar a cadeia por um empreguinho publico. Além do mais, pondera, o que poderia dar errado numa missão dessas? (isso sem falar que missão dada, para Rambo, é missão cumprida) 

Eu vou lhes dizer agora o que poderia dar errado numa missão dessas: (1) você pode ter problemas com o paraquedas; (2) todo o seu equipamento pode se perder, te deixando na selva como veio ao mundo, ou seja, só com uma faca, a faixinha vermelha na cabeça e um arco-e-flecha (que dentre todas as armas padrão do arsenal dos EUA é justamente a que eu também teria escolhido, caso não me deixassem levar um barbeador elétrico); (3) o contato local designado para lhe servir de guia até o campo de prisioneiros pode ser uma donzela de olhos claros, especialista em massagem vietnamita e aparentemente disposta a tudo por um greencard; (4) os vietcongs podem matar a tal mocinha, o amor da sua vida, na sua frente; e (5) você pode ser um sociopata vingativo que acha uma babaquice esse negócio de ficar tirando retrato quando pode muito bem partir pras cabeças e libertar os prisioneiros.
O enredo é imprevisível porque, como vocês sabem, craque é assim mesmo; cresce quando joga sob pressão e sempre pode desequilibrar: o mesmo cara que lutou durante anos, junto com todo o aparato militar americano, e não fez nada; num dia inspirado vai lá e resolve num lance individual, basicamente vencendo a Guerra do Vietnam sozinho. 
  
A Cena Inesquecível de "Humor Involuntário":

Rambo e Co-Bao, sua guia, viajam de barco em direção ao covil inimigo (e fica para a imaginação do espectador a razão pela qual, sendo especialista em infiltração e tendo que ir até lá de qualquer forma, a própria mocinha não podia ter tirado as malditas fotos sozinha e depois postar ela mesma @Instagram, de preferencia urilizando o filtro "Nashville", que é bem bacana). 


uma missão, quatro filtros

A química entre os dois é tão óbvia que Rambo não se dá o trabalho de mandar nada melhor que aquela conversinha manjada, que todo cara usa quando quer pegar mulher durante uma operação militar secreta em território hostil: metendo o dedo no meio do decote da garota, pergunta “esse seu colar... o que é?”. Penso que só de a mina não ter respondido “é um colar” já significa que tava dando condição ao ataque. Ela diz “é uma coisa que eu uso pra dar sorte”. Rambo é matador e não desperdiça: em dois minutos de papo, a menina já havia contado toda a sua historia, desde o tempo em que era uma criança e de tudo o que vivera ate ali, que resolveu entrar de vez naquela dança, ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu etc.; mas que o que ela queria era sair para ver o mar e as coisas que ela via na televisão; também deu tempo de discutirem coisas sobre o planalto central, sobre magia e meditação, de se beijarem, e de Rambo prometer leva-la à América. 

Estavam nisso quando aparecem, do nada, uma dúzia de vietcongs (não avisaram mesmo os caras que a guerra tinha acabado) disparando rajadas de metralhadora. Cerca de 450 mil projéteis atingem Co-Bao no tiroteio do qual Rambo escapa completamente ileso e trucida os vilões sem nem suar a camisa (que não usava). A cena poderia ter sido um simples clichê de filmes de ação, não fosse a genialidade dos roteiristas: antes de fazer o que faz de melhor (afinal, o cara é matador), Rambo decide pegar o colar da falecida e passa a usa-lo dali por diante. Exatamente. Aquele que dá sorte.