Sunday, February 17, 2013

O Mestre de Cerimônias e as Adolescentes Enlouquecidas

Mais um autor estreante aqui no boraver.com, o amigo João Thiago.  Para publicar seu texto no boraver mande e-mail para boraverblog@gmail.com


by João Thiago Santos


Olha ali! É ele! O mestre de cerimônias!
Para um cidadão comum, assumir o papel de Mestre de Cerimônias não é tarefa fácil para os mais tímidos, mas tampouco para os mais desinibidos. Saibam que o frio na barriga é sintoma comum a qualquer um neste contexto. Se o contexto é uma cerimônia pública com muitas pessoas, aí então a friaca na região abdominal é daquelas que acelera o processo digestivo. O fim da história é correr pro W.C., por razões estritamente emocionais.

Acredito que isto tudo deve-se às reações do público que acompanha o evento. Em família, o mestre de cerimônias é personagem de si mesmo, e leva para o local onde discursará todos os apelidos, traquejos, cacoetes, defeitos, taras e manias. Esta é uma daquelas ocasiões da vida em que você pára, reflete e diz para si mesmo: “Fodeu”.



Primos, Irmãos e Cunhados esperam somente a primeira gaguejada – às vezes, nem isso – e começam a gritar: “Carequinha” (apelido que você carrega desde a primeira adolescência em função de não ter pelos na região pubiana. Isso mesmo: a alcunha em destaque quer dizer que o orador é ou foi um “sem-pentelho”), “Tripé” (alusão ao fato de o orador ter um "cipó" equivalente a uma terceira perna, o que não seria bem o melhor assunto para se falar numa reunião familiar), “Bufa de Anão” (Você pensou que se tratava de flatulências, não é?! Mas este apelido deriva da estatura reduzida do orador) e por aí vai… O objetivo é desconcertar, é fazer o improvisado mestre de cerimônias perder a concentração e se perder no discurso.


O pior é quando o evento é público e, por motivo profissional, você é convocado para a função de discursar para dezenas, centenas, ou até milhares de pessoas. Pior do que isso só encontrar com Delírio (um “personagem recifense“ que entrou para o rol de lendas urbanas da cidade, assim como o “Perna Cabeluda” e “Biu do Olho Verde”. No caso “deliriano”, não se pode repetir o apelido três vezes, sob pena de ele aparecer ao seu lado, instantes depois de repetido o nome pela terceira vez).


Pois foi num evento público que um colega se viu diante do inusitado. Ao entrar no palco do Centro de Convenções de Pernambuco – para apresentar a Mostrar de Curtas-Metragens do  Festival de Cinema – ouviu duas mil adolescentes gritarem seu nome de forma ensurdecedora. As meninas eram alunas da rede pública e lotavam o Teatro com capacidade para 3.500 pessoas.


“Lindo, Tesão, Bonito e Gostosão” – eles gritaram para desesperado do Mestre de Cerimônias por acidente. Algumas delas chegaram a tentar invadir o palco para beijar, rasgar a roupa e tirar um pedaço do nosso amigo. Foi preciso o pessoal da administração do evento proteger a entrada do palco.


À beira do microfone, elas se exasperavam aos gritos, sem permitir que ele anunciasse os patrocinadores do evento e os diretores que iriam discursar sobre seus filmes.


“Gostoso, Tesudo” – foram adjetivos que deixaram um desinibido jornalista numa condição defensiva e rubro de vergonha.


Quando uma delas gritou “Peiudo”, ele simplesmente não conseguiu conter o riso, terminou rapidamente a leitura e despediu com beijos para a plateia. "Peiudo" foi demais! (Nota do Editor: Para os que moram foram do Recife vale traduzir, “Peiudo” se refere ao homem que possui o membro sexual avantajado, algo como o “Homem Beringela”).


Até hoje,  o tal jornalista é conhecido como o Rei das Suburbanas (mas, como diria Gentil Cardoso, melhor ser cabeça de sardinha que rabo de baleia). "A Vida como ela é" acontece aqui mesmo, no Recife.