Tuesday, February 19, 2013

Clínica para Recuperação de Babacas

Este post é uma continuação do post "Babaquice tem Cura?", para ler o texto inicial clique AQUI



by Sir Anthony - da reportagem  local


Nem o Vettel resiste a um "chifrinho" básico
Num ambiente sóbrio, embora desprovido de encantos, fomos recepcionados pelo próprio Dr. Sobrinho Jr.,  uma tipo relativamente normal, com gel nos cabelos, sapatos pretos, meias brancas e cinto marrom a dividir, na altura do peito, a calca baggy da camisa xadrez que trajava. Não era um astro do rock, mas podia ser o tio de qualquer um. Falava de maneira bastante pausada, e mostrou-se visivelmente satisfeito consigo mesmo por não ter comentado que uma das nossas assistentes de reportagem estava com o fio da meia-calça  puxado. 

Apesar da simpatia, não pude poupa-lo e tive que perguntar, logo de saída: "Você pode mesmo curar a babaquice?". Ele: "Claro que não! Babaquice não tem cura! São meus detratores que distorcem o que eu estou fazendo aqui. O que nos desenvolvemos foi um tratamento, com base na terapia de grupo, pra fazer com que o babaca se controle e deixe de causar danos a si mesmo e às pessoas ao seu redor. Eu mesmo, posso dizer, sou um babaca em remissão". O Dr. nos explicou todos os tipos de babaca, falou sobre os babacas históricos e sua influencia nos rumos da política, da economia, da música etc.. Uma palestra interessantíssima, mas que ultrapassa completamente os objetivos desse post.



Nossa curiosidade foi aumentando no decorrer da conversa e o Dr.  finalmente nos perguntou se gostaríamos de acompanhar uma seção do tratamento dos babacas. "O Sr. não vê problemas em chama-los de ‘babaca’, assim, com todas as letras?"; "Meu filho, o primeiro passo do nosso método" - são sete ou oito passos, aparentemente - "consiste justamente no paciente tomar consciência da própria condição e dizer ‘eu sou um babaca’; o que, alias, é uma coisa que todo mundo já sabia, menos ele...". Antes de entrar no salão onde ocorreria a terapia, fomos avisados de que não poderíamos filmar ou gravar o tratamento, muito menos falar com nenhum dos babacas presentes, ao que dei graças a Deus.

O primeiro paciente se apresentou como "Colunista" (ninguém usa o nome verdadeiro; por isso o grupo é também chamado de “babacas anônimos, ou BA”). “Olá Colunista”, disseram todos. “é a minha primeira vez aqui. Não sei onde começar. Eu queria ser escritor, mas acabei virando jornalista. Hoje eu sou colunista social. Essa semana eu escrevi, na mesma matéria, 3 vezes ‘regado a champanhe’ e 4 vezes ‘para ver e ser visto’ (quatro vezes!). Já no finzinho, quando eu estava digitando ‘paulicéia desvairada’ eu vi que era hora de buscar ajuda...”. O Colunista começou a soluçar, o Dr. Sobrinho interviu dizendo que era preciso muita coragem pra ser admitir que é um babaca. Todos aplaudiram. 


Então foi a vez de um cidadão de camisa alaranjada de mangas curtas e gravata com padrões estéticos peculiares. “Eu sou o Palhaço da Firma” – novamente “Olá, Palhaço da Firma”.  “O grupo tem me apoiado muito e vocês sabem que não é fácil pra mim largar isso. Eu tenho esse problema desde a minha infância, meu pai arranjava encrenca com o técnico da escolinha de futebol pra ele me escalar. Eu nunca superei isso e jurei que não passaria esse legado adiante; acabei virando o técnico do time do meu filho... e no escritório, eu era o cara que organizava as festas de aniversario e constrangia todo mundo cantando musiquinhas do tipo “a chuva cai, a rua inunda, ô fulano eu vou comer teu bolo”. 


A coisa foi piorando, não resistia a um “sentou na cabaceira hein fulano, vai pagar a conta” durante os almoços com os colegas, nem a um “não saca tudo não, deixa um pouquinho pra mim” quando encontrava alguém no caixa eletrônico que foi instalado no nosso escritório.  Perdi o controle totalmente, alguém derrubava alguma coisa e eu mandava um “caiu um lenço”, um outro aparecia de terno e gravata e eu na hora perguntava: “Vai fazer exame de fezes”? Não conseguia lutar contra minha obsessão por uma piadinha babaca, era passar o carro da polícia e, quase que por reflexo cutucava quem estivesse ao meu lado: “se esconde, se esconde”. "Graças a ajuda de vocês, eu estava recuperando a minha vida... mas na semana passada..." - o Dr. teve de encoraja-lo a prosseguir - “...na semana passada eu vi a D. Terezinha, secretária do departamento sentada na cadeira do chefe, na hora eu não pensei em nada, acabei falando nossa, chefe, como você esta bonito hoje! e naquele momento eu percebi o que tinha feito... por que eu não disse apenas bom dia, D. Terezinha, por que meu Deus?!”. Abraços solidários. O Dr. Sobrinho Junior comentou comigo que eram normais esses episódios no início do tratamento.

A expressão confiante do terapeuta deu lugar a preocupação quando levantou a mão um homem de seus quarenta anos, todo arrumadinho, cabelos projetados por Niemeyer.  "Fale, meu jovem...?", hesitou o cientista, que parecia preferir que o jovem não falasse. "Olha, eu não sou babaca. Estou aqui porque a minha esposa me obrigou" (a esposa de fato estava ao lado e deve ter fraturado algumas costelas do rapaz com um cutucão). 


"Tá, eu vou falar! Meu nome é Alien, e querem saber, sou babaca mesmo"  


(Não falaram o tradicional "Olá, Alien". Falou antes o analista) "Hummm, é um nome bastante atípico pros padrões daqui..."


"...pois é, eu achei que seria um nome bem cool..."


"... já esse pensamento é bastante típico... entendo porque sua mulher acha que você precisa de ajuda. Alias, já que ela esta aqui, será que não quer falar também... como posso chamar a Sra.?"


"Não pode"


"Esta bem, Sra. ‘Não Pode’ – disse o doutor um pouco nervoso, em meio a risinhos abafados dos demais ("não existe mesmo ex-babaca", pensei naquele momento) – "antes de entrarmos no caso do seu marido, vamos falar de você. A minha experiência diz que sempre há um pequeno babaca dentro de cada um de nós"


A esposa do ‘Alien’ provavelmente pensou em responder em quais momentos exatamente ela sentia que havia um pequeno babaca dentro dela, mas se conteve a tempo. Levantou-se e foi embora, claramente precisando de um uisquezinho antes de ir resolver a guarda das crianças. 


Em vez de ir atrás da mulher, o babaca engomadinho começa a falar sem parar "eu sou um babaca mesmo! E daí? Assim como o "Palhaço da Firma", é no escritório que deixo aflorar meus instintos mais babacas. Adoro sacanear meus subordinados com o tradicional "tá desmotivado?" quando eles vão embora antes de mim, ou então soltar aquele velho "e o que você vai ficar fazendo da meia noite às seis da manhã?" nos dias em que eles falam que não vai dar tempo de fazer algo. Eu puxo o saco do meu chefe (chego a dar gargalhadas escandalosas ouvindo ele contar a mesma piada da semana anterior), sou o "espalha rodinha" das confraternizações.  O problema é que de uns tempos pra cá comecei a abusar das babaquices em casa também, minha mulher não me aguenta mais, vocês viram? Hahahahaha.  


Ficou claro que aquilo não era um discurso de um babaca querendo se curar: o cara estava na verdade se gabando de tudo aquilo! Imaginem o naipe do sujeito que se leva tão a sério que até pra ser babaca ele precisa ser o maior de todos (e quem não lhe daria razão naquele momento?). Suando frio, o Dr. Sobrinho Junior antecipou o coffee break, pois temia que aquele último discurso pudesse servir de estopim para recaídas de outros babacas...


De fato o clima era tenso, na mesa de guloseimas do coffee break tinha um pavê de sonho de valsa e pelo menos dois pacientes deixaram escapar um "é pavê ou pá comê?"


No final, sugeri tirarmos uma foto do grupo, para ilustrar a reportagem, com a garantia de que todos apareceriam com tarja no rosto, para manter o anonimato.  Após meia hora desistimos pois não conseguimos nenhuma imagem em que 100% dos participantes não estivessem fazendo “chifrinho” com os dedos por trás da cabeça dos colegas...  



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