Tuesday, February 05, 2013

Beleza Americana por Nelson Rodrigues (parte 02)




by Pedro Tolentino


Este post é a segunda parte do texto "Beleza Americana por Nelson Rodrigues", 
para ler a parte 1 clique AQUI.

ÓCIO


No dia seguinte, Aristides chegou cantarolando na repartição, em nada lembrava aquele homem tímido e cabisbaixo que normalmente passava desapercebido por seus colegas de trabalho, foi direto para a sala do Pereira, o chefe do seu departamento.

Algo como vinte minutos se passaram até que saiu Aristides, estava leve, visivelmente feliz, embora tentasse disfarçar se via um sorriso no canto da boca. Ignorou a sua mesa entulhada de papéis e chamou o Almeidinha para um café:

Chegando no boteco da esquina Aristides resolve trocar o café por uma dose de aguardente, toma o líquido em um só gole, abre um sorriso e diz:

- Almeidinha, tiraste a sorte grande!
- Por quê?
- Até o final da semana serás nomeado chefe de departamento!
- Mas, e o Pereira?
- O Pereira vai pedir demissão, e vai recomendá-lo para o cargo.
- Certeza?
- Batata!
- Como sabe disso?
- Porque foi idéia minha.
- E desde quando o Pereira recebe ordens suas?
- Desde hoje.
- Posso saber por que?
- Digamos que eu sei coisas sobre o Pereira, coisas que ele não quer que outros saibam.
- Papagaio!
- Pois é, o Pereira está na minha mão.
- E porque não assumes tu mesmo o cargo?
- Tenho outros planos, semana que vem me aposento por invalidez.
- Potoca! Não és inválido!
- Detalhes Almeidinha, detalhes. Ah, e você está dispensado do trabalho hoje, sua única obrigação é tomar um trago comigo.  Te falei amigo, a sorte sorriu para ti, aliás, para nós.

PODER

Aída chega em casa no final da manhã e encontra Aristides num torpor de lança-perfume. Deitado sobre o sofá da sala, segura um lenço numa mão e na outra um tubo de "Rodouro".  Da vitrola se ouve o trompete de Chet Baker no último volume.  Aristides não está só, junto a ele, na cadeira de balanço, um rapazola aparentando 18 ou 19 anos não contém as gargalhadas enquanto "toca" com as mãos um trompete imaginário.  Passado o choque inicial, Aída agarra Aristides pelos dois braços, sacudindo-o. Aristides, ainda zonzo, reconhece a mulher e simplesmente sorri, como se nada de anormal estivesse acontecendo em sua casa.

- Eu posso saber o que está acontecendo aqui?
- Olá querida, estava voltando pra casa e esbarrei com o Anacleto, é nosso novo vizinho, acho que ainda não conheces, ele tem essa coleção de discos fantástica, você precisa ouvir, é sensacional, olha isso!!! (agora é a vez de Aristides "tocar" o trompete imaginário).
- Ah, claro, e desde quando você tem o hábito de ouvir esta música de negros e inalar lança perfume com garotos de 18 anos em plena terça feira?  Será que estamos na terça de carnaval e eu me confundi com o calendário?  Por que não está na repartição? Posso saber?
- Eu larguei a repartição, cansei!  Por enquanto a combinação jazz e Rodouro me parece mais interessante, hahahahahahahaha (Anacleto não se controla e também cai na gargalhada).
- Está louco Aristides? Largou o emprego? Não tem responsabilidade? És um pai de família.  Isso não vai ficar assim, vou ligar já pro meu pai e meus irmãos, quero ver se essa loucura resiste a uma boa surra.

Aristides nem espera Aída terminar a frase e acerta-lhe um bofetão no meio da cara.  Logo ele, que em vinte anos de casamento nunca havia levantado a mão para a esposa!  Aída fica sem reação.

- Boa idéia querida, acho que sua família ficará feliz em saber das suas escapadelas com o Oliveira, não é a toa que não tens mais vontade de se entregar ao teu marido, o corretor deve te satisfazer direitinho não é mesmo?
- O que está dizendo? estás louco!
- Eu sei de tudo Aída, tenho provas! Fui fiel por vinte anos e em troca me colocas um belo par de chifres, mas quer saber de uma coisa?  Eu não ligo, não mais.
- Não liga?
- Nem um pouco, se quiser ir às vias de fato com o mendigo da esquina é problema seu, mas a partir de hoje vais levar outros bofetões como este sempre que me desrespeitar, principalmente na frente de meus convidados, está entendido?  Quem manda nesta casa sou eu, agora chispa daqui!!

Aída, transtornada com o que se passara, corre para o quarto e se põe aos prantos. Aristides saboreia por um momento a sensação de poder, algo tão raro até então em sua vida, mas logo volta a pensar em Dorinha...


Para ler a parte 3, clique AQUI 

2 comments:

  1. Rita Lee9:32 PM

    Me vira de ponta cabeça
    Me faz de gato e sapato
    Me deixa de quatro no ato
    Me enche de amor, de amor
    Lança, lança perfume

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  2. Anonymous9:41 PM

    Me dá um lenço, Mandarim,
    Bote um pouquinho,
    Desse cheirinho pra mim,
    Bote, bote, bote, mais um bocadinho,
    Eu vou pro céu devagarinho.

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