Wednesday, February 13, 2013

Beleza Americana por Nelson Rodrigues (parte 03 - final)

by Pedro Tolentino

Este post é a terceira parte do texto "Beleza Americana por Nelson Rodrigues", para ler os capítulos anteriores, clique nos links abaixo:

Beleza Americana por Nelson Rodrigues - Parte 01
Beleza Americana por Nelson Rodrigues - Parte 02

O Coronel Machado há algum tempo que andava incomodado com o crescente contato do filho Anacleto com o vizinho Aristides, o qual considerava um sujeito de princípios duvidosos.  O boato do caso entre Aída, mulher de Aristides, e Oliveira, um simpático corretor de imóveis da redondeza, corria solto, e o marido Aristides, supostamente traído, parecia alheio ao fato, como se não lhe dissesse respeito.  Aristides, há algum tempo, assumira uma postura estranha, começou a vestir-se com ternos bem cortados, ouvir música de negros no último volume, trocou seu Volks por uma Lambreta e virou frequentador assíduo da noite carioca, tornando-se amigo dos piores tipos.  

Além disso haviam dois tipos que viviam do outro lado da Rua, o Nilsinho e o Souza, estudantes de direito que dividiam uma casa, com despesas bancadas pelos respectivos pais, abastados industriais de Vitória. Devido aos modos afeminados dos dois, cresciam os boatos de que eles eram mais que amigos.  O bom relacionamento entre os dois e Aristides colocou uma pulga atrás da orelha do Coronel Machado.  Seria Arisrides um pederasta, que mantinha um casamento de fachada só para poder continuar levando uma vida de pouca vergonha deitando-se com outros homens?  Se este fosse o caso era preciso afastar Anacleto de Aristides imediatamente, e o Coronel chamou o filho para uma conversa.

- Anacleto, o que achas dos vizinhos da frente, o Nilsinho e o Souza?
- Não sei meu pai, não tenho muito contato com eles.
- São pederastas, aqueles dois, sabes disso, não sabes?
- Mesmo? não sabia.
- Pois agora sabes.
- Sim, mas procuro não me meter na vida alheia.
- Como assim Anacleto, essa raça é a escória da humanidade, esfregam na nossa cara essa pouca vergonha!!
- Sim meu pai, eu concordo, tenho nojo destes tipos!
- Eu também filho, eu também.

Aristides, um homem mudado, havia achado em Dorinha uma nova razão para viver.  Cuidava-se mais, tornou-se vaidoso, preocupava-se com o vestir, aparava o bigode de forma impecável.  Nas noitadas, acompanhado de Anacleto, buscava aprender as gírias e costumes da nova geração.  Um belo dia sua filha Socorro pediu permissão ao pai para que a amiga Dorinha passasse a noite em casa.  Aristides, incapaz de esconder um sorriso no canto da boca, assentiu.  Aída não estaria em casa à noite, alegou um chá de senhoras na casa de uma prima, provavelmente uma desculpa esfarrapada para encontrar o corretor. A essa altura Aristides queria mais é que Aída nem voltasse mais pra casa, deixando ele e Dorinha mais à vontade. É hoje, pensou ele!!!

No final da tarde Anacleto aparece e passa algumas horas com Aristides, gargalhando entre porres de "Rodouro" ao som de Dizzie Gillespie no último volume.  Anacleto se despede e segue caminhando até a praça, onde se encontra com Socorro, com quem há algum tempo vive sorrateiramente um tórrido romance.  Após a saída de Anacleto, Aristides mergulha em pensamentos libidinosos sobre Dorinha, se despe e analisa o próprio corpo no espelho.  Por ter sido um remador quando jovem, Aristides tem ombros largos e bom porte físico, não fará feio com Dorinha, pensa ele.

O Coronel Machado, preocupado por achar que seu filho ainda está fazendo "sei lá o que" com Aristides até aquela hora.  Com um binóculo o coronel resolve dar uma espiadinha na casa do vizinho.  Ao ver Aristides, completamente nu em frente ao espelho, o Coronel não tem mais dúvidas do que está acontecendo.  

- Vou matar esse cachorro do Aristides! Acabar com a raça dele!

Arma em punho o Coronel segue transtornado até a casa do vizinho, chove forte.  Ao ouvir a campainha Aristides veste-se rapidamente e desce para atender a porta.  Ao abrir depara-se com um coronel ensopado, o coronel olha para Aristides e, num reflexo subconsciente, tasca-lhe um beijo de língua.  Aristides afasta-se.

- Desculpe Coronel Machado, mas deve ter havido algum mal entendido.

O coronel, transtornado e envergonhado com a situação, volta pra casa sob a chuva forte, sem pronunciar mais uma palavra sequer.  Aristides fica ali sem entender nada.  Volta para o quarto e pensa:  "papagaio, logo o Coronel!".  Ao abrir a porta do quarto Aristides quase tem um ataque cardíaco.  Logo ela, Dorinha, se encontra deitada em sua cama, vestida apenas com uma camisola de seda

- Vem cá Aristides, estamos a sós, você me quer, não quer?

"Aristides, tiraste a sorte grande" (pensou ele)

Este foi o último pensamento de Aristides, antes que um tiro, disparado por trás, desse um fim prematuro à sua vida.  Aristides morreu feliz.

No comments:

Post a Comment