Monday, February 04, 2013

Beleza Americana por Nelson Rodrigues (parte 01)

by Pedro Tolentino


Beleza Americana (American Beauty), ganhou Oscar de melhor filme em 1999.  Dirigido por Sam Mendes e escrito por Alan Ball, explora os sentimentos reprimidos de uma família de classe média americana.  No filme nada é o que parece ser, e aos poucos os desejos e frustrações dos personagens vão sendo expostos. Enquanto uns explodem dentro de si e resolvem viver a vida que gostariam mas nunca puderam, caso do personagem principal Lester Burnham (Kevin Spacey), outros se agarram às máscaras até o fim, incapazes de aceitar seus impulsos por julgarem estes indecentes ou inadequados.  A direção de Sam Mendes é de tirar o chapéu e o roteiro de Allan Ball é simplesmente brilhante.  

O que não me sai da cabeça, no entanto, é que Ball (que levou o Oscar por melhor roteiro original), em algum momento de sua vida deve ter tido contato com a obra de um dos maiores dramaturgos brasileiros, cuja obra é não menos controversa e genial.  Um homem que sabia como ninguém explorar o eterno conflito humano entre o instinto e a razão, entre o impulso e a preservação da imagem, uma imagem adequada à sociedade em que estão inseridos.

O dramaturgo ao qual me refiro é Nelson Rodrigues, autor de peças como Vestido de Noiva, Os Sete Gatinhos, Bonitinha mas Ordinária e Engraçadinha, além da série de crônicas "A vida como ela é", publicadas no jornal última Hora na década de 1950 e porteriormente adaptadas para a televisão pela Rede Globo em 1996.

O roteiro de Beleza Americana poderia, tranquilamente, ter sido escrito por Nelson Rodrigues, vejamos abaixo como seria...

Para facilitar a paródia vamos transportar a narrativa para o Rio de Janeiro dos anos 50, e tornar os nomes dos personagens um pouco mais "Rodriguianos".

Lester (Kevin Spacey) - Aristides
Carolyn (Annette Bening) - Aída
Jane, a filha (Thora Birch) - Socorro
Angela, a amiga da filha (Mena Suvari) - Dorinha
Ricki, o vizinho estranho (Wes Bentley) - Anacleto
Pai do vizinho estranho (Chris Cooper) - Coronel Machado
O rei dos imóveis (Peter Gallagher) - Oliveira
Personagem extra - Almeidinha

FRUSTRAÇÃO

Há algum tempo que faltava paixão na vida de Aristides, seja pela filha Socorro, por seu enfadonho ofício na repartição, e mesmo pela esposa Aída, que dormia todas as noites a seu lado, mas que já há algum tempo havia deixado claro que dormir seria só o que fariam naquela cama.

Um belo dia, Aristides chama o colega Almeidinha para um café e desabafa:  

- Almeidinha, tenho uma coisa pra te contar...
- Conta!
- Não sei explicar.
- Desembucha, anda!
- Sabe o que é? Não amo mais minha mulher!
- Posso ser franco?
- Claro.
- Não sei como aguentaste tanto tempo.
- Sério?
- Pois claro, tua mulher é uma jararaca!
- E porquê não me falaste isso antes?
- Porque achei que gostava dela, ora bolas!
- Não sei se tenho coragem.
- Ah, e tome nota, sua mulher o trairá!
- Isso não...
- Batata, é questão de tempo!
- Não posso tomar uma decisão tão drástica, eu e Aída estamos juntos há 20 anos!!!
- Então pelo menos arranje uma amante!
- Uma amante?
- Se vais ser traído, que pelo menos traia também, não é justo?

DORINHA

Aristides caminha com Aída à escola de balé para a apresentação de dança de Socorro, a conversa com Almeidinha não lhe sai da cabeça. Incomodado com o silêncio, resolve puxar conversa.

- Aída, não te parece um tanto sem propósito esse negócio todo de balé?  A Socorro já tem 18 anos, devia estar tentando arrumar marido...
- Lá vamos nós para a mesma conversa, é de amargar hein?

Chegando no teatro, Aristides senta-se na platéia, abre seu exemplar de O Cruzeiro e pede, em pensamento, para que aquele martírio termine o mais rápido possível.  Quando o espetáculo começa, é repreendido por Aída e obrigado a deixar de lado a revista, além de fingir estar interessado no espetáculo. Ao focar os olhos no palco logo reconheceu a desengonçada filha Socorro, "que coisa aborrecida", pensou.  

Foi então que avistou pela primeira vez Dorinha e tudo mudou.  Aristides entrou em um estado de transe e não conseguiu mais tirar os olhos da menina, uma uva, uma criatura que de tão perfeita não podia ser real.  Por ser da mesma turma de Socorro, Aristides assumiu que Dorinha devia ter dezoito anos. "Ah, todas as mulheres deviam ter dezoito anos", pensou um embasbacado Aristides.


Para ler a parte 2 clique AQUI



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3 comments:

  1. Por enquanto está fantástico!!! Espero, ansioso, a parte 2....

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  2. A atriz q fez a amiga da filha dele era a Mena Suvari!

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  3. Tem razão Andrea, corrigido, abs

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