Wednesday, January 30, 2013

BoraLer? Livraria de Aeroporto (parte 1)



by Sir Anthony


“…ou faça a assinatura trienal
e emagreça 0,5 tonelada”
Apesar das contradições, o Brasil sempre foi um pais abençoado por Deus e bonito por natureza. Por isso, desde que comecei a viajar a trabalho, sempre me apavorou a ideia de ir pra um lugar longe de casa e ser vitima de, sei lá, um desastre natural, um terremoto, talvez, e acabar soterrado em uma adega de vinhos raros, tendo que me alimentar exclusivamente de queijos variados e Bordeaux dos séculos XVIII e XIX, sem absolutamente nada pra ler enquanto aguardava o resgate. Eu não sei como vocês lidam com este sentimento, e creio que cada um deva ter os seus macetes, mas no meu caso o que salvam são as livrarias de aeroporto. Agora eu passo numa dessas mesmo que seja só pra pegar a ponte-aérea.

Tenho ouvido falar que já existe uma tecnologia que permite a você carregar as obras completas de Borges e sabe Deus o que mais num dispositivo portátil não muito maior nem mais pesado que um livro de tamanho comum. Mesmo que seja verdade, é difícil acreditar que se possa capturar num gadget toda a riqueza da experiência de passear por uma livraria de aeroporto (nota do editor:  Sir Anthony tem uma certa dificuldade com novas tecnologias, a última que ele conseguiu dominar foi a da tesoura). Vocês sabem: existe a literatura, existe a subliteratura e, em algum ponto entre a pornografia masoquista e os manuais de informática, existem os livros vendidos nas livrarias de aeroporto (LDA), cujos principais subgêneros são “Ficção de Aeroporto”, “Manuais de Gestão Empresarial de Aeroporto”, “Revistas de Dieta”, “Autoajuda”, e “Esoterismo” (os últimos três só existem na forma “de aeroporto”, mesmo quando vendidos em outros lugares).   


Por muito tempo eu pensei que o critério para formação do acervo das LDA fosse o temperamento sádico e caprichoso de seus donos, mas mudei de ideia no dia em que ouvi, no supermercado, o locutor dizer, sem qualquer traço de ironia, que “se você esta procurando algo interessante pra ler, a Radio Pão de Açúcar recomenda ‘Ulisses’, de James Joyce. Considerada a obra-prima do autor irlandês, o livro trata de...”. Depois disso, eu passei a esperar que o sistema de áudio anunciasse também um convite pra “você, que esta se sentindo um pouco fora de forma, inscreva-se na Ultramaratona Pão de Açúcar, que ocorrerá no próximo sábado. Com pouco mais de 84 km, o percurso é a oportunidade perfeita para dar um basta nesse sedentarismo e começar uma vida mais saudável...”.

Caiu a ficha que quem vive de vender frutas a preços exorbitantes pode se dar ao luxo de recomendar a seus fregueses que leiam até mesmo pergaminhos etruscos, mas o sujeito que precisa vender livros tem que ser um pouco mais conservador. Os donos de LDA, se pudessem, só venderiam Machado de Assis, Camus e Proust (não confundir com o Alain Proust, o piloto), mas na pratica é o frequentador quem escolhe o que vai encontrar nas prateleiras, por auto-seleção. 

Reflitam. Com base na quantidade de guias de viagem numa LDA, um observador ingênuo poderia inferir que o público-alvo da loja são os turistas, mas estaria enganado, pois quem viaja a passeio, comprou seus guias meses antes de chegar ao aeroporto, possivelmente antes de adquirir as passagens. E mesmo que durante o longo planejamento que antecede a viagem não tivesse tido tempo de comprar toda a Biblioteca do Congresso, o turista ainda renderia pouquíssimo para uma LDA, porque vai apenas esporadicamente ao aeroporto, rumo a destinos interessantes, muitas vezes acompanhado de amigos ou familiares. Tentar adivinhar seus gostos seria a ruina de um livreiro de aeroporto.


A LDA precisa de uma clientela mais confiável, de cauda curta, composta de gente que frequenta aeroportos regularmente, viajando sozinho, por obrigação, para lugares maçantes, e de preferencia só tendo sabido na véspera que estaria num avião no dia do jogo de futebol do filho caçula. O perfil desse cliente é  bem mais previsível: ele tem ou logo terá problemas de relacionamento e está desesperado pra ser promovido (já que casais inteligentes enriquecem juntos, mas advogados ainda mais inteligentes fazem fortunas quando eles se separam). Também vai precisar perder a barriga pra se recolocar no competitivo mercado do amor. A LDA oferece tudo que ele precisa. 

Os livros esotéricos são um caso especial: não basta o fato de haver gente disposta a apelar até pra magia quando se trata de amarrar a pessoa amada, conseguir um aumento ou definir a silhueta. Como a LDA precisa ser muito seletiva e coerente pra poder maximizar o lucro por metro quadrado de loja, a proeminência do ocultismo só se justificaria por algum fator comum que leve os frequentadores a ter uma propensão ao misticismo maior que a observada no restante da população. Tal fator consiste justamente no próprio consumo de livros de LDA. Uma vez que você já tenha se convencido de que existem sete (ou oito) hábitos que podem transforma-lo no Steve Jobs e que a chave para todos os mistérios da vida amorosa é que os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, não lhe custa quase nada acreditar também que os deuses do Egito eram astronautas. Trata-se de uma extensão natural de portfolio, portanto.

Um pouco mais desafiadora é a situação das publicações pra emagrecer. Ainda me impressiona a boa-vontade do camarada que diante do numero 302 da revista, não se sente tentado a relativizar a eficácia das técnicas recomendadas nas 301 edições anteriores - o que também poderia lançar alguma dúvida sobre os poderes da dieta das vogais contida no exemplar deste mês, apesar da forte evidencia cientifica que a revista apresenta.


Mas quando eu acreditava que já tinha visto de tudo em LDAs, eis que na semana passada, tive a surpresa de ver na LaSelva do aeroporto do Recife um livro com o nome de Oscar Wilde. Hedonista, egômano, sarcástico, elitista e moderadamente genial, Wilde podia até ser alguém com quem valesse  a pena tomar uma cerveja, mas com certeza não era o tipo de pessoa em quem você confiaria pra dar uma carona a sua filha (ou ao seu filho; ou ao seu hamster), menos ainda um autor que eu esperasse encontrar numa LDA. E não encontrei mesmo: tratava-se de “Oscar Wilde para inquietos”, coleção de máximas cínicas de Wilde, acompanhadas de “interpretações” que só se explicam se tiverem sido escritas por vingança (Nota do Editor:  Isso não é nome de livro, isso é nome de post do boraver, vou processar a editora...). 


Leia também o thriller
“O Código do Cotoco de Lápis”
apontado  para o Prêmio
Faber Castel de Literatura 
Não se deve julgar um livro pela capa, mas não tiremos o mérito de quem não se deixa intimidar ante o risco de ser processado por plágio, mesmo que o acusador seja Daniel Kahneman, autor de “Rápido e Devagar”,  autor que deu novo sentido ao termo “analista financeiro”. Qualquer que seja o desfecho da historia, a imagem de um lápis mordido é uma tendência que veio para ficar no mercado editorial. 

Outro hit do momento são os livros com sapato de salto alto na capa. A autora de “O Diabo Veste Prada” ainda lidera o segmento,  com quatro títulos, mas, assim como na indústria de livros com lápis mordido, o sucesso vem atraindo a concorrência. “Deixe os homens aos seus pés” é outro que aposta na podolatria como elemento central de seu modelo de negócios. As semelhanças terminam ai, porque a estreante não se limita a contar historias de mulheres poderosas usando saltos altos, mas ensinar a própria leitora como se tornar ela própria a rainha da cocada preta. O livro contém técnicas avançadíssimas capazes de tornar qualquer gata borralheira uma mulher “poderosa & irresistível”. Mesmo assim, pelo sim pelo não, a editora optou por botar na capa a coelhinha da playboy Maria Melilo, ganhadora do BBB 11, no lugar da foto da autora. 

A essa altura, muitos homens poderiam estar intimidados pela iminência de cada mulher do planeta se transformar numa atlética e desinibida dominatrix de salto agulha. Se esse é o seu caso, a saída pode ser a leitura de “Como Influenciar Pessoas Poderosas”, descendente direto (na linha de Xangô) do inesquecível “Como Fazer Amigos e Influenciar as Pessoas”. Enquanto seu antecessor era voltado ao publico sociopata em geral, o novo manual é indicado especificamente para o frequentador de LDA, ou seja, o cara que não tem tempo a perder com amigos e muito menos influenciando gente sem importância. Uma pena a edição ter saído sem o esperado prefacio de Bill Clinton, que, estranhamente, nunca chegou a retornar as ligações do autor. 

leia a a parte 2


veja AQUI os livros que um dia ainda farão sucesso nas livrarias de aeroporto



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