Thursday, January 31, 2013

BoraLer? Livraria de Aeroporto (Parte 2)


by Sir Anthony

Esta é a Parte 2 do texto "BoraLer? Livraria de Aeroporto"


Clique AQUI para ler a Parte 1


... continuando:


“Qual é a da florzinha?
Tá me estranhando? Eu sou espada!”
Bem próximo dos volumes de autoajuda (tanto física, como intelectualmente) ficam os livros de gestão empresarial de aeroporto; ambos os gêneros se valem das 9 sacadas para vender livros em aeroportos, dentre elas a tendência a especificar um certo numero de leis, práticas, técnicas etc., de tal modo que, apos ler, digamos, “Os Sete Hábitos das Pessoas Muito Eficazes” você esteja pronto para alcançar todos os seus objetivos de vida, seja enlouquecer um homem na cama, seja enlouquecer o presidente do conselho de administração da empresa onde trabalha.

A possível objeção de que esse modelo poderia limitar a produção (portanto os lucros) de autores e editoras, não se verifica na prática. Como no caso das revistas sobre dietas, um titulo como “O Oitavo Hábito”, não faz ninguém se perguntar como o autor foi esquecer de incluir a cerejinha do bolo na primeira obra. Ao contrario, o livro acaba se tornando um sucesso de vendas justamente por oferecer ao leitor uma explicação coerente de porque ainda não se tornou vice-presidente da Microsoft, apesar de ter praticado os sete hábitos anteriores. 


Essa fé que anima os consumidores de livros de negócios comprados em LDAs torna a analogia com a religião bastante óbvia. Só um extravagante se disporia a estudar gestão de tesouraria quando pode pegar umas dicas de “Salomão: o Homem mais Rico que já Existiu”. Para aprender a gerir um conglomerado global, você tem “Madre Tereza, CEO” (sim, vocês leram direito), bem como “As 25 Leis Bíblicas do Sucesso”, com prefacio de Eike Batista, que deve conhecer até mais que 25 leis. A esses, que se propõem a traduzir os princípios da mais profunda espiritualidade para a linguagem dos negócios, também é possível fazer o contrário, falar de business com vocabulário de religião. 

Quando Shakespeare escreveu que até o diabo pode citar as escrituras, devia ter em mente livros como “A Bíblia da Inovação”, do Prof. Philip Kotler, que dispensa apresentações. Eu sei que a expressão “dispensa apresentações” dispensa comentários, mas Kotler vale o risco, porque quem já precisou estudar marketing, com certeza teve que ler “Marketing Management”, livro-texto fundamental da disciplina em todas as escolas no hemisfério ocidental. Por outro lado, se você nunca precisou estudar marketing, não vejo razão pra aborrecê-lo com isso agora.     


Mais importante é saber que, além daquele clássico, Kotler produziu outras 51 boas ideias para livros que enriquecem o mundo das letras aeroportuárias. Não são exatamente continuações da produção intelectual do autor, mas demonstrações praticas dos seus ensinamentos sobre como criar um produto e faze-lo chegar até seu público-alvo - que neste caso são pessoas ansiosas por dominar o marketing, mas em no máximo sete (ou oito) passos, no intervalo entre conexões.  Apesar de tudo, Kotler pelo menos pode dizer, como naqueles adesivos de carro, “meu outro livro é o Marketing Management”.  Já Kahneman esfrega na nossa cara que depois de ganhar um Nobel em economia você tem o direito de ganhar a vida mordendo lápis. 


O caldo entorna mesmo quando você parte para os livros de Estratégia. A obra padrão que você encontrará sobre o assunto numa LDA terá títulos curiosos, como “Os Mestres da Estratégia”, “Safari da Estratégia” e, claro, “A estratégia do Olho de Tigre”.  Como eu trabalho nessa área, posso dizer com toda sinceridade que me interesso pelo assunto como se a minha vida dependesse disso. Por essa razão, toda vez que vejo este fenômeno editorial, experimento uma intensa curiosidade (quase a ponto de abrir o livro) por saber o que diabos pode vir a significar uma estratégia “olho de tigre”. 



"Eyes of the Tiger"
Apollo e Drago que se cuidem...
Em baixa desde o fim da franquia “Rocky Balboa”, que tinha "Eyes of the Tiger" até na trilha sonora, essa a estratégia voltou com tudo no filme “As Aventuras de Pi” (pausa para q vocês façam suas próprias piadas). Com 11 indicações ao Oscar e bilheteria de US$ 500 milhões, a metodologia felino-oftalmológica rendeu à película um lugar de destaque entre os filmes de maior faturamento na historia, como (em milhões de dólares) ET (435), Shrek 2 (440) e Batman (535). Não deixa de ser notável desbancar as estratégias tão consagradas quanto as do “bafo de ogro” e a do “dedo de alien”. Alias, ao saber que o sucesso nos cinemas é o indicador mais seguro da eficácia de um modelo de negócios você compreende o entusiasmo da maioria dos executivos na pratica da estratégia “Titanic”.

Mas, como em toda disciplina, os livros mais importantes não são os da moda e sim os clássicos. E em se tratando de estratégia empresarial de aeroporto nenhum outro merece mais esse titulo que “A arte da Guerra”, suposto tratado militar escrito pelo suposto Sun Tzu, há, supostamente, 2500 anos.


Tudo bem que um clássico, por definição, nunca perde a atualidade; você acrescenta algumas poucas notas de rodapé e ele está novo. No entanto, numa edição típica de “A arte da Guerra”, os comentários costumam ocupar de 70% a 80% das paginas, porque sem eles o estilo zen da escrita de Sun Tzu poderia induzir o leitor a refletir seriamente sobre a real utilidade de seus conselhos, não só para quem vai escrever o plano de negócios de um sexshop online, mas até pro sujeito que desejasse apenas conduzir uma batalha decente na China do sec. IV a.C. Por isso, cabe aos autores contemporâneos a tarefa de estimular o velho sábio a dizer um pouco mais.


O caso mais extremo é o de um guru  brasileiro que já redigiu mais de uma dezena de livros em “coautoria” com o mestre chinês (não foi o Chico Xavier), abordando não só os óbvios temas de gestão empresarial e estratégia, como também, por exemplo, a criação de adolescentes. Fruto dessa rica parceria, “A arte da Guerra & A Arte do Amor” me deu a ideia de qualquer dia escrever “69 Lições do Kama Sutra Aplicadas aos Negócios” - mas não sei se tenho experiência suficiente em estratégia corporativa. O interesse do mercado por uma obra assim já foi demonstrada pelo best-seller “Capital Erótico”, fundamental para as empresas que já aprenderam a administrar o capital intelectual, o capital social e o capital emocional de seus colaboradores, mas acreditam que ainda pode haver algum espaço para mais sacanagem.


veja AQUI os livros que ainda farão sucesso nas livrarias de aeroporto...



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