Thursday, December 27, 2012

Filosofia da sessão da tarde - Namorada de Aluguel

Caros Leitores:

Até agora procurei facilitar o entendimento, por parte dos leigos, das idéias de grandes pensadores das ciências humanas.  Escrevi aqui sobre grandes mestres da filosofia, psicologia, sociologia e economia.  

Agora vou adotar o approach inverso e mostrar como alguns filmes, a princípio bobos, nos mostram características interessantes do comportamento humano, e por isso nos identificamos com eles.

Na minha época de criança e pré-adolescência, estudava de manhã e tinha as tardes livres.  Muito antes da TV a cabo virar uma realidade, recorríamos à sessão da tarde na rede Globo, que tinha o hábito de repetir os mesmos filmes indefinidamente. Por pura falta de opção, assisti a alguns desses filmes mais de 10 vezes.  Estávamos no final dos anos 80, e como a sessão da tarde não trazia lançamentos (privilégio de super-cine ou tela-quente).  A maioria do material que ia ao ar havia sido produzido três ou quatro anos antes.

Sempre acompanhados de muito laquê, ombreiras, permanentes e outros modismos da época, alguns personagens marcaram época, chegou a hora de desvendar as mensagens subliminares destes clássicos vespertinos.

Namorada de Aluguel (Can't buy me Love) - 1987

Patrick Dempsey (Ronald); Amanda Peterson (Cindy)



Antes de qualquer coisa, atenção para o as roupas e cabelos do par romântico.  Cindy não economiza nas ombreiras, utilizando um paletó que parece haver sido emprestado a ela pelo seu pai.  Seus longos cabelos foram cuidadosamente encrespados por uma permanente e não sairiam do lugar nem no caso do furacão Katrina invadir a escola onde estudava.  Ronald, já na fase "cool", resolveu rasgar as mangas da camisa com suas próprias mãos, e faz questão de mostrar o peito nu, mantendo a gola levantada, o resultado não foi dos melhores...

Sinopse:


Ronald Miller (Dempsey) é um nerd típico de uma escola secundária no. Ele passou todo o verão cortando gramas para conseguir comprar um telescópio (a galera não aliviava para estereotipar os nerds). No entanto, em um momento oportuno, ele faz um acordo com a popular cheerleader Cynthia "Cindy" Mancini (Peterson), que precisava do dinheiro para repor um vestido branco cafonérrimo de camurça, o qual Cindy tinha pego da mãe escondido e manchado de vinho (o Vanish ainda não havia sido lançado).

Por US$ 1.000 Cindy concorda em fingir ser a namorada de Ronald por um mês.  Cindy, é claro, era a garota mais popular do colégio, e além de passar o dia no salão fazendo permanentes e passando laquê ela ensaiava junto com as suas amigas populares para atuar como (adivinha...) cheerleader.  Ambos concordam em nunca revelar o pacto.

A idéia de Ronald é que, ao ser visto com Cindy, também se tornará popular e seus dias de nerd ficarão para trás.

Ronald começa a desconhecer seus nerd-mas-leais amigos, trocando por amigos mais adequados na hierarquia da escola, entre eles (adivinha...) o quarter-back to time de futebol americano. Ronald sofre uma completa reforma no visual sob a orientação de Cindy (veja o resultado fantástico na foto acima). 

Ao longo do mês, porém, os dois vão descobrindo um ao outro e se tornam mais próximos. Cindy começa a realmente gostar de Ronald. O sentimento é mútuo mas Ronald não capta a mensagem e segue com o plano original, termina com ela na frente de todos e, tendo ficado "popular", se torna cada vez mais mala, além de começar a flertar com as amigas de Cindy (que colocam ainda mais laquê em seus cabelos que a protagonista).

Quando Ronald começa a passar o rodo nas laqueadas da escola, Cindy fica p... da vida e conta a verdade para todos (o acordo dos R$ 1.000).  Com a revelação Ronald volta a ser ignorado pela galera "popular" e agora também pelos ex amigos nerds.  No final do filme, porém, Ronald se redime defendendo um amigo nerd numa briga e acaba re-conquistando o coração de Cindy.  Na cena final Ronald e Cindy passeiam felizes sobre o cortador de grama.

Análise sócio/psico/filosófica:

George Homans, sociólogo norte americano, formulou na década de 50 a "teoria da troca" nas relações humanas.  Essa teoria defendia que todos os relacionamentos humanos se baseavam em interesse.  "Aprovação social" seria a recompensa básica de que as pessoas buscavam ao escolher com quem se relacionar e o quanto de esforço colocariam em cada relação.

Ronald se encontrou em uma situação onde poderia "comprar" aprovação social e se aproveitou dela.  A busca pela aprovação social, ou status, é inerente ao ser humano.

Ocupar uma posição de domínio no grupo incentiva a produção de serotonina, um neuro-transmissor que provoca uma sensação boa, da mesma forma ter uma posição submissa no grupo incentiva a produção de cortisol, substância que provoca tristeza e desapontamento.  Isso ocorre porque a liberação de neurotransmissores ("felizes"e "tristes"), acontece na parte mais primitiva do nosso cérebro (parte relacionada aos instintos).  Por mais que tentemos racionalizar que status não é importante, os neurotransmissores continuarão dizendo que é.

Existe uma razão para isso, a parte primitiva do nosso cérebro (mammal brain), foi sendo formada ao longo de milhões de anos, quando ainda éramos macacos.  Ser o "macho alfa" de um bando, significava prioridade na alimentação e acesso às fêmeas para reprodução.  Os macacos menos populares comiam menos, tinham menos chance de se reproduzir e estavam mais sujeitos a ataques de predadores.

Alguns dos nossos antepassados não ligavam para status, mas milhões de anos de seleção natural se encarregaram de reduzir ao mínimo este tipo de indivíduo.  O mais provável, portanto, é que sejamos descendentes dos macacos que consideravam status como algo importante. 

O personagem Ronald não era diferente, e aproveitou o quanto pode as descargas de serotonina provenientes da sensação de estar em uma posição dominante.  Dada a oportunidade Ronald fez o que qualquer mamífero faria, e agiu de forma a melhorar sua posição na hierarquia do grupo, nem que para isso ele tivesse que usar aquele "look" lá de cima...


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1 comment:

  1. Ferris Bueller9:10 AM

    Cara, tens que falar do Curtindo a Vida A Doidado; nietzsche e o ubermench, epicurismo, carpe diem, qualquer desculpa serve pra falar desse classico...

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