Saturday, December 29, 2012

Filosofia da sessão da tarde - Karate Kid

"Este moleque se meteu numa tremenda enrascada, e para sair dessa vai precisar de uma mãozinha de um mestre das artes marciais"
(chamada típica da Globo nos anos 80)

Segue o quarto (e último) filme da série "Filosofia da Sessão da Tarde".




Karate Kid - A Hora da Verdade (The Karate Kid) - 1984

Ralph Macchio (Daniel Larusso), Pat Morita (Sr. Miyagi), William Zabka (Johnny Lawrence)


Daniel LaRusso (Ralph Macchio), um colegial, move-se com sua mãe de Newark, Nova Jersey para Reseda, um bairro na região do Vale de San Fernando, Califórnia. O zelador do seu conjunto de apartamentos é um excêntrico, mas bondoso e humilde imigrante de Okinawa chamado Sr. Miyagi (Pat Morita).

Daniel se torna amigo de Ali Mills (Elisabeth Shue), uma líder de torcida da escola bonita e atraente, irritando o arrogante ex-namorado, Johnny Lawrence (William Zabka). Johnny é o melhor aluno da Cobra Kai dojo, onde é ensinada uma forma violenta de artes marciais, sem só nem piedade (o treinamento na Cobra Kai segue o modelo "BOPE"). Daniel conhece um pouco de karate de livros e algumas aulas, mas Johnny facilmente o derrota em seu primeiro encontro.

Daniel segue sofrendo bullying (na época devia ter outro nome) de Johnny e sua turma. Voltando para casa pós uma festa a fantasia, Daniel é cercado pelos inimigos e sofre uma baita surra (as semelhanças com o BOPE continuam pois Johnny e seus comparsas usam fantasias de caveira).

O massacre é interrompido pelo Sr Miyagi, que, mesmo em final de carreira, é capaz de derrubar cinco caveiras e resgatar Daniel ainda com vida. No dia seguinte, Daniel e Myiagi vão até a Cobra Kai para falar com o dono da academia, John Kreese (Martin Kove), ou simplesmente "sensei" (uma alma gêmea do capitão Nascimento, inclusive na tendência de usar bordões do tipo "o inimigo não merece compaixão"). Myiagi convence Sensei a mandar Johnny parar com o bullying, desde que Daniel se proponha a enfrentá-lo novamente em um torneio dali a dois meses.

Durante esse período, Sr. Myiagi se dedica a treinar Daniel através de uma filosofia Zen Budista (Pinte a cerca, pra cima, pra baixo, pra cima, pra baixo). Um tanto frustrado com as primeiras aulas, Daniel vai aos poucos ganhando confiança no método do velho Myiagi.


No dia do torneio, Johnny confirma o favoritismo chegando à final com facilidade. Na segunda semi-final, Daniel tem que lutar contra Bobby (outro "caveira" da Cobra Kai). Sensei ordena a Bobby quebrar a perna de Daniel através de um golpe proibido. Pela lógica de Sensei, Bobby seria desqualificado, mas com Daniel sem condições de luta Johnny seria o campeão.

Bobby executa o Golpe, é desqualificado e Daniel, classificado para a final, cai no chão com muita dor e faz o sinal pedindo a maca. No vestiário, Myiagi conversa com o preparador físico paraver se "Daniel San" terá condições de enfrentar Johnny.

Após algumas massagens e aplicações de "Gelol", Daniel volta ao tatame mancando, claramente contundido. Ao chegar ao seu posto, Daniel faz uma pose de bailarino do "lago dos cisnes". A pose ridícula de Daniel deixa Johnny confuso, tirando sua concentração. Neste momento Daniel executa um "duplo mortal twist carpado" (de dar inveja a Dayane dos Santos),e leva Johnny a nocaute, sagrando-se o grande campeão.

Análise sócio/psico/filosófica:

A identificação do espectador com o personagem Daniel San tem origens bíblicas, a velha paródia da vitória de Davi contra Golias. O triunfo do mais fraco sobre o mais forte. É como ligar a televisão no meio de um jogo entre Alemanha e Eslováquia: você sabe que provavelmente vai dar Alemanha, mas a tentação de torcer pela Eslováquia é simplesmente irresistível.

O diretor do filme torna a escolha ainda mais óbvia quando descreve o forte como frio, calculista e desleal, enquanto que o fraco (e seu mestre), transbordam virtude e humildade. Durante o treinamento, Sr. Miyagi passa sabedoria e ensinamentos profundos a Daniel, fala coisas sobre o céu, a terra, a água, o ar, coisas sobre o planalto central, também magia e meditação. Faz tudo isso com aquela expressão de suprema serenidade, enquanto cuida de sua coleção de "bonsais".

Sócrates (o filósofo, não o jogador), já no século 3 a.c. defendia que o conhecimento era o que havia de mais valioso, e julgava que o mal era consequência da ignorância. O reconhecimento da ignorância é o primeiro passo para a sabedoria, daí a famosa frase socrática "só sei que nada sei" (também usada pelo outro Sócrates em momentos de embriaguez). Ao reconhecer que nem pintar a cerca ele sabia, Daniel percebe o quanto precisa aprender.

A influência Socrática no método "Miyagiano" fica ainda mais clara na cena em que Daniel treina de olhos vendados. De acordo com o filósofo grego em seu "mito da caverna", o mundo invisível pode ser mais inteligível do que o visível, sendo o mundo visível, paradoxalmente, o mais obscuro. Enfim, é até difícil de entender porque Myiagi, com a inteligência de um Stephen Hawkins e a habilidade no tatame de um Anderson Silva, acabou aceitando um emprego como zelador...


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