Friday, December 28, 2012

Filosofia da sessão da tarde - Curtindo a vida adoidado

"Apertem os cintos, pois esse tremendo maluco vai virar a cidade de pernas pro ar e aprontar pra valer!" (chamada típica da Globo nos anos 80)

Atendendo a pedidos, aqui vai, o segundo texto da série "filosofia da sessão da tarde":


Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller's Day Off) - 1986

Matthew Broderick (Ferris), Allan Ruck (Cameron), Jeffrey Jones (Ed), Mia Sara (Sloane)




Ferris Bueller (Matthew Broderick), aluno do último ano do ensino médio, decide não ir à escola em um dia de primavera e finge uma doença para seus pais, em seguida, incentiva sua namorada Sloane (Mia Sara) e seu melhor amigo, o ultra pessimista Cameron (Alan Ruck ) a passar o dia em Chicago, 

Precisamos de uma última aventura juntos antes de se separarem para cursar universidades diferentes! Com esse argumento, Ferris convence Cameron a deixá-los usar a Ferrari 250 GT 1961 de seu pai (até que Cameron tinha seus motivos pra ficar preocupado), para viajar até a cidade. 

Duas pessoas, no entanto, não estão convencidos da doença de Ferris: sua irmã Jeanie (Jennifer Grey), e o diretor da escola, Edward Rooney (Jeffrey Jones), eles vão tentar desmascará-lo (sempre tem os "estraga prazeres" de plantão...).


Ferris e seus amigos chegam centro e deixam a Ferrari com dois garagistas, que levam o carro para "passear" pouco tempo depois (esta cena deixou muita gente da minha geração que mora em São Paulo com certo receio de entregar o carro no Valet). Ferris, Sloane e Cameron desfrutam de muitos pontos turísticos da cidade, assistem um jogo no Wrigley Field, visitam a Torre Sears, o Instituto de Arte de Chicago, a Chicago Mercantile Exchange e participam no desfile do Dia de Von Steuben, quando Ferris tem a oportunidade de dublar a música "Twist and Shout" (cena clássica do filme).

No final eles recuperam a Ferrari (após alguns sustos) e Ferris consegue chegar em casa pouco antes dos pais, tendo driblado Ed (o diretor do colégio) diversas vezes ao longo do dia.  A aventura termina sem maiores consequências para Ferris, Sloane ou Cameron.


Análise sócio/psico/filosófica:

É fácil entender porque nos identificamos tanto com este filme.  Apesar de pouco grave, a transgressão de Ferris é a realização de um desejo que existe dentro de todos nós. Torcemos para que o plano de Ferris funcione e gostamos do "final feliz" do filme, quando Ferris vai dormir sem ter sido pego enquanto transgredia.  Conforme diria a filósofa Sheryl Crow:  "All I wanna do is have some fun, I have a feeling, I'not the only one".  Ela realmente não é a única, nem ela e nem Ferris.

O filme poderia ter sido escrito e produzido por Friedrich Nietzsche, pois simboliza muito daquilo que pregava o filósofo alemão.

 "O mundo para Nietzsche não é ordem e racionalidade, mas desordem e irracionalidade.  A única e verdadeira realidade sem máscaras, para Nietzsche, é a vida humana tomada e corroborada pela vivência do instante." 

O sucesso de "Curtindo a Vida Adoidado" baseia-se na simplicidade de sua mensagem.  Ferris apenas segue um instinto que existe dentro de todos nós e tira um dia para "desafiar o sistema".  Para Nietzche, "A moral (obedecer ao sistema) é o caminho mais fácil de ser trilhado, é confortável traçar este caminho e subtrair a plena visão autêntica da vida" .  Em algum momento, no entanto, a vivência do instante torna-se necessária, isso é ilustrado no filme (torcemos por Ferris pois de alguma forma entendemos que ele "merece" viver aquele momento).  Em seu final deixa a entender que no dia seguinte tudo voltará ao "normal", e Ferris voltará a agir de acordo com o que a sociedade dele espera.

Além da forte ligação com o pensamento de Nietzche, o filme também traduz o pensamento do filósofo grego Epícuro, do século IV a.c. que acreditava que "o maior bem era a procura de prazeres ...de forma a atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo" .

Outras obras modernas trazem a mesma mensagem, um bom exemplo é o samba enredo da União da Ilha de 2008:


"É hoje o dia da alegria e a tristeza
Nem pode pensar em chegar

Diga espelho meu
Se há na avenida 
Alguém mais feliz que eu"

Enfim, como já disse David Bowie:  "We can be Heroes, just for one day".  Em "Curtindo a Vida Adoidado", Ferris Bueller nos mostra que "yes, we can".


Gostou da proposta? Para ver todos os quatro posts da série "Filosofia da Sessão da Tarde" clique AQUI

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